Há uns tempos atrás fiquei chocado por uma manifestação de falta de confiança; afinal, eu tinha ficado chocado em vão porque tudo correu bem.
Há dois dias na folha de couve oficial, torno a ver o mesmo.
Fico contente porque vejo que os amigos não só para as ocasiões; são para todas as ocasiões.
A diferença de nível hierárquico é nenhuma o que ainda mais conforma o meu igualatarismo.
10 outubro, 2008
16 setembro, 2008
Frases de jornalistas
(Isto é retirado da revista Almanaque, de Fevereiro de 1961, pp. 47-48)
Algumas frases utilizadas pelos profissionais do jornalismo e o que as mesmas frases querem dizer.
1- Telefonou-me ontem o Dr. X…
Consegui, à sétima tentativa, que o Dr. X viesse ao telefone
2- Não posso dizer quem me deu a notícia.
Disseram-me na Brasileira.
3- Corria ontem em Madrid o boato…
Ontem em Madrid não corria nenhum boato mas, agora, é natural que passe a correr.
4- Almocei ontem com o Dr. Y.
Vi o Dr. Y no restaurante onde eu estava a almoçar.
5- Fontes geralmente bem informadas…
O empregado do meu cafá.
6- O nosso correspondente em Marselha…
Aquele tipo de Marselha que escreve para todos os jornais.
7- Como previ há 5 anos.
Ninguém se lembra do que eu dissa há 5 anos.
8- Não trataram o representante da imprensa com o devido respeito…
O porteiro não me deixou entrar de borla.
Algumas frases utilizadas pelos profissionais do jornalismo e o que as mesmas frases querem dizer.
1- Telefonou-me ontem o Dr. X…
Consegui, à sétima tentativa, que o Dr. X viesse ao telefone
2- Não posso dizer quem me deu a notícia.
Disseram-me na Brasileira.
3- Corria ontem em Madrid o boato…
Ontem em Madrid não corria nenhum boato mas, agora, é natural que passe a correr.
4- Almocei ontem com o Dr. Y.
Vi o Dr. Y no restaurante onde eu estava a almoçar.
5- Fontes geralmente bem informadas…
O empregado do meu cafá.
6- O nosso correspondente em Marselha…
Aquele tipo de Marselha que escreve para todos os jornais.
7- Como previ há 5 anos.
Ninguém se lembra do que eu dissa há 5 anos.
8- Não trataram o representante da imprensa com o devido respeito…
O porteiro não me deixou entrar de borla.
23 agosto, 2008
Idas e vindas
Nestas coisas de férias, com portos, estações e aeroportos, lembro-me sempre da seguinte anedota:
O Américo Tomáz foi ao Aeroporto da Portela despedir-se do Cardeal Cerejeira que viajava para Roma.
Diz o Américo Tomaz:
- Adeus Insigne Viajante.
Responde o Cardeal:
- Adeus Insigne Ficante.
11 junho, 2008
Dia da raça
Ontem foi dia de Portugal, de Camões e das Comunidades.O PR, por lapso ou intencionalmente, evocou o dia da raça.
Além disto provocar uma reacção esquisita do PCP, cujo confronto com a História é sempre difícil, deve-se notar que o PR fez bem em evocar o antigo dia da raça pois nem ele nem ela existe já.
O dia passou à história e a raça já não a temos; nem raça nem fibra.
Apenas queremos sol na eira e chuva no nabal.
08 maio, 2008

Estive há dias nos Açores pelas festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres.
Estava a andar por ali quando vejo uma casa, toda florida, com bandeiras. Mais de perto, reparei que uma bandeira era a dos Açores e a outra a da Grécia.
Fiquei espantado porque não vi a Bandeira Nacional.
Falei com os meus amigos deste humilde tasco que me explicaram que a casa é a do Chefe da Confraria do Santo Cristo que é, também, o cônsul da Grécia.
Está bem, está certo que ele ponha lá a bandeira do país estrangeiro que representa — mas a Bandeira Nacional não tem que estar hasteada na presença da bandeira de outro país?
Afinal, que representante é este que a Grécia tem nos Açores? Um indivíduo que nem sequer respeita o seu próprio país? Se eu fosse o Embaixador da Grécia em Portugal ficaria preocupado com a escolha desta pessoa para seu cônsul; se ele trata mal o seu país, então como tratará a Grécia?
Enfim, só fique ofendido.
Não fui na procissão.
Estava a andar por ali quando vejo uma casa, toda florida, com bandeiras. Mais de perto, reparei que uma bandeira era a dos Açores e a outra a da Grécia.
Fiquei espantado porque não vi a Bandeira Nacional.
Falei com os meus amigos deste humilde tasco que me explicaram que a casa é a do Chefe da Confraria do Santo Cristo que é, também, o cônsul da Grécia.
Está bem, está certo que ele ponha lá a bandeira do país estrangeiro que representa — mas a Bandeira Nacional não tem que estar hasteada na presença da bandeira de outro país?
Afinal, que representante é este que a Grécia tem nos Açores? Um indivíduo que nem sequer respeita o seu próprio país? Se eu fosse o Embaixador da Grécia em Portugal ficaria preocupado com a escolha desta pessoa para seu cônsul; se ele trata mal o seu país, então como tratará a Grécia?
Enfim, só fique ofendido.
Não fui na procissão.
16 abril, 2008
Tacho ou talvez não
Todos os dias leio a folha de couve oficial. Por duas razões: não é tão gratuita como isso, é só os últimos 30 dias; depois, gosto de saber destas coisas da legislação e administração.
Vi ontem o diário e apanhei um choque quando vejo que uma secretária pessoal de um Secretário de Estado tinha sido exonerada. Pensei logo que aqui havia problema, perguntei-me o que se teria passado para o SE demitir a sua secretária pessoal.
Mas só pensei nisto um segundo porque o despacho logo a seguir do mesmo SE nomeia uma assessora. Pensei logo que as coisas, afinal, não eram tão negras como eu tinha pensado um momento antes.
Fui ver, que isto da coscuvilhice não é só de velhas e o jornal é público, e constatei que a secretária pessoal exonerada é a assessora nomeada!
Eu tenho ideia que as funções e as capacidades e os requisitos para um cargo e para outro são bem diferentes mas se calhar a senhora em questão tem isso tudo.
Se assim for, eu só acho bem.
Vi ontem o diário e apanhei um choque quando vejo que uma secretária pessoal de um Secretário de Estado tinha sido exonerada. Pensei logo que aqui havia problema, perguntei-me o que se teria passado para o SE demitir a sua secretária pessoal.
Mas só pensei nisto um segundo porque o despacho logo a seguir do mesmo SE nomeia uma assessora. Pensei logo que as coisas, afinal, não eram tão negras como eu tinha pensado um momento antes.
Fui ver, que isto da coscuvilhice não é só de velhas e o jornal é público, e constatei que a secretária pessoal exonerada é a assessora nomeada!
Eu tenho ideia que as funções e as capacidades e os requisitos para um cargo e para outro são bem diferentes mas se calhar a senhora em questão tem isso tudo.
Se assim for, eu só acho bem.
08 abril, 2008
Querido líder

O deputado do PND na Assembleia Legislativa da Madeira propôs a construção de uma estátua a Alberto João Jardim, a erigir no Funchal, com cerca de 50 metros de altura, por ocasião e em homenagem aos seu 30 anos de governação. Referindo-se a Jardim como o «ilustre e intrépido guia e mentor do Madeirense Novo», sustenta este tribuno que tal estátua deva ser colocada no cimo do antigo Forte de S. José, na entrada do porto do Funchal. E mais, que deva ter uma escada interior para os visitantes subirem até à altura da cabeça «de onde poderão observar a baía e a mui nobre cidade do Funchal, através dos olhos do seu amado líder.» Acrescenta que «na base do pedestal, sejam colocadas pequenas rodas em aço, como nos antigos moinhos da ilha do Porto Santo, ligadas por correias transmissoras a um mecanismo propulsor interno, que permita que a estátua acompanhe o movimento do sol, como fazem os girassóis; que, na altura do zénite do astro-rei, emita a estátua um forte silvo, que simbolize para as gerações vindouras os imortais dotes oratórios de Jardim; que a energia necessária ao movimento de rotação e apito da estátua seja fornecida pelas ondas do mar.»
Na linha de Estaline, Mao Tse Tung e Kim Il Sung (outros «queridos líderes»), o PND segue um caminho de provas dadas; ou então o intrépido deputado perdeu a cabeça.
Na linha de Estaline, Mao Tse Tung e Kim Il Sung (outros «queridos líderes»), o PND segue um caminho de provas dadas; ou então o intrépido deputado perdeu a cabeça.
03 abril, 2008
Rocket O'Sullivan
Há 11 anos, O'Sullivan fez a jogada da vida de qualquer um: 147 pontos em cerca de 5 minutos. Isto significa marcar 15 vezes a preta mais as respectivas vermelhas e fazer as bolas de ordem.
Parece fácil mas reparem: no ponto 79, vejam a suavidade da tacada; no ponto 96 é patente que ele faz o que quer; para o ponto 140, vejam a branca.
Parece fácil mas reparem: no ponto 79, vejam a suavidade da tacada; no ponto 96 é patente que ele faz o que quer; para o ponto 140, vejam a branca.
27 março, 2008
Essa é que é essa
15 março, 2008
Dúvida jurídica
11 março, 2008
Governo dá uma «mãozinha» na acção de Paulo Pedroso contra o Estado

DONA «TRAPALHADA» II
Um documento de Catalina Pestana apareceu misteriosamente nas mãos do advogado de Paulo Pedroso. E quem o passou foi o chefe de gabinete do ministro Vieira da Silva. A juíza já participou ao Ministério Público. O caso prova as ligações entre o Governo e Paulo Pedroso, num caso em que este processa o Estado...
07 março, 2008
PIDESCO

Agentes da PSP, cumprindo ordens, estão a ir às escolas perguntar quem são os professores que vão à «marcha da indignação», uma manifestação de professores do ensino básico e secundário marcada para amanhã, em Lisboa.
É uma loucura. Estamos no mês de Março… mas parece que de 1974!
Onde está o PR?
Não está em causa «o regular funcionamento das instituições democráticas»?
Onde está o PR?
Não está em causa «o regular funcionamento das instituições democráticas»?
06 março, 2008
A propósito de cultura popular

«Ser alentejano não é um dote, é um dom...»
Palavra mágica que começa no Além e termina no Tejo, o rio da portugalidade. O rio que divide e une Portugal e que à semelhança do Homem Português, fugiu de Espanha à procura do mar.
O Alentejo molda o carácter de um homem. A solidão e a quietude da planície dão-lhe a espiritualidade, a tranquilidade e a paciência do monge; as amplitudes térmicas e a agressividade da charneca dão-lhe a resistência física, a rusticidade, a coragem e o temperamento do guerreiro. Não é alentejano quem quer. Ser alentejano não é um dote, é um dom. Não se nasce alentejano, é-se alentejano.
Portugal nasceu no Norte mas foi no Alentejo que se fez Homem. Guimarães é o berço da Nacionalidade, Évora é o berço do Império Português. Não foi por acaso que D. João II se teve de refugiar em Évora para descobrir a Índia. No meio das montanhas e das serras um homem tem as vistas curtas; só no coração do Alentejo, um homem consegue ver ao longe.
Mas foi preciso Bartolomeu Dias regressar ao reino depois de dobrar o Cabo das Tormentas, sem conseguir chegar à Índia para D. João II perceber que só o costado de um alentejano conseguia suportar com o peso de um empreendimento daquele vulto. Aquilo que para o homem comum fica muito longe, para um alentejano fica já ali. Para um alentejano não há longe, nem distância porque só um alentejano percebe intuitivamente que a vida não é uma corrida de velocidade, mas uma corrida de resistência onde a tartaruga leva sempre a melhor sobre a lebre.
Foi, por esta razão, que D. Manuel decidiu entregar a chefia da armada decisiva a Vasco da Gama. Mais de dois anos no mar... E, quando regressou, ao perguntar-lhe se a Índia era longe, Vasco da Gama respondeu: «Não, é já ali.». O fim do mundo, afinal, ficava ao virar da esquina.
.
Para um alentejano, o caminho faz-se caminhando e só é longe o sítio onde não se chega sem parar de andar. E Vasco da Gama limitou-se a continuar a andar onde Bartolomeu Dias tinha parado. O problema de Portugal é precisamente este: muitos Bartolomeu Dias e poucos Vasco da Gama. Demasiada gente que não consegue terminar o que começa, que desiste quando a glória está perto e o mais difícil já foi feito. Ou seja, muitos portugueses e poucos alentejanos.D. Nuno Álvares Pereira, aliás, já tinha percebido isso. Caso contrário, não teria partido tão confiante para Aljubarrota. D. Nuno sabia bem que uma batalha não se decide pela quantidade mas pela qualidade dos combatentes. É certo que o Rei de Castela contava com um poderoso exército composto por espanhóis e portugueses, mas o Mestre de Avis tinha a vantagem de contar com meia-dúzia de alentejanos. Não se estranha, assim, a resposta de D. Nuno aos seus irmãos, quando o tentaram convencer a mudar de campo com o argumento da desproporção numérica:
- «Vocês são muitos? O que é que isso interessa se os alentejanos estão do nosso lado?»
- «Vocês são muitos? O que é que isso interessa se os alentejanos estão do nosso lado?»
Mas os alentejanos não servem só as grandes causas, nem servem só para as grandes guerras. Não há como um alentejano para desfrutar plenamente dos mais simples prazeres da vida. Por isso, se diz que Deus fez a mulher para ser a companheira do homem. Mas, depois, teve de fazer os alentejanos para que as mulheres também tivessem algum prazer. Na cama e na mesa, um alentejano nunca tem pressa. Daí a resposta de Eva a Adão quando este, intrigado, lhe perguntou o que é que o alentejano tinha que ele não tinha:
- «Tem tempo e tu tens pressa.»
Quem anda sempre a correr, não chega a lado nenhum. E muito menos ao coração de uma mulher. Andar a correr é um problemaque os alentejanos, graças a Deus, não têm. Até porque os alentejanos e o Alentejo foram feitos ao sétimo dia, precisamente o dia que Deus tirou para descansar.
E até nas anedotas, os alentejanos revelam a sua superioridade humana e intelectual. Os brancos contam anedotas dos pretos, os brasileiros dos portugueses, os franceses dos argelinos... só os alentejanos contam e inventam anedotas sobre si próprios. E divertem-se imenso, ao mesmo tempo que servem de espelho a quem as ouve.
Mas para que uma pessoa se ria de si própria não basta ser ridícula porque ridículos todos somos. É necessário ter sentido de humor. Só que isso é um extra só disponível nos seres humanos topo de gama.
Não se confunda, no entanto, sentido de humor com alarvice. O sentido de humor é um dom da inteligência; a alarvice é o tique da gente bronca e mesquinha. Enquanto o alarve se diverte com as desgraças alheias, quem tem sentido de humor ri-se de si próprio. Não há maior honra do que ser objecto de uma boa gargalhada. O sentido de humor humaniza as pessoas, enquanto aalarvice diminui-as. Se Hitler e Estaline se rissem de si próprios, nunca teriam sido as bestas que foram.
E as anedotas alentejanas são autênticas pérolas de humor: curtas, incisivas, inteligentes e desconcertantes, revelando um sentido de observação, um sentido crítico e um poder de síntese notáveis.Não resisto a contar a minha anedota preferida. Num dia em que chovia muito, o revisor do comboio entrou numa carruagem onde só havia um passageiro. Por sinal, um alentejano que estava todo molhado, em virtude de estar sentado num lugar junto a uma janela aberta.
- «Ó amigo, por que é que não fecha a janela?», perguntou-lhe o revisor.
- «Isso queria eu, mas a janela está estragada.», respondeu o alentejano.
- «Então por que é que não troca de lugar?»
- «Eu trocar, trocava... mas com quem?»
- «Ó amigo, por que é que não fecha a janela?», perguntou-lhe o revisor.
- «Isso queria eu, mas a janela está estragada.», respondeu o alentejano.
- «Então por que é que não troca de lugar?»
- «Eu trocar, trocava... mas com quem?»
Como bom alentejano que me prezo de ser, deixei o melhor para o fim. O Alentejo, como todos sabemos, é o único sítio do mundo onde não é castigo uma pessoa ficar a pão e água. Água é aquilo por que qualquer alentejano anseia. E o pão... Mas há melhor iguaria do que o pão alentejano? O pão alentejano come-se com tudo e com nada. É aperitivo, refeição e sobremesa. E é o único pão do mundo que não tem pressa de ser comido. É tão bom no primeiro dia como no dia seguinte ou no fim da semana. Só quem come o pão alentejano está habilitado para entender o mistério da fé. Comê-lo faz-nos subir ao Céu!
É por tudo isto que, sempre que passeio pela charneca numa noite quente de Verão ou sinto no rosto o frio cortante das manhãs de Inverno, dou graças a Deus por ser alentejano. Que maior bênção poderia um homem almejar?
Santana-Maia Leonardo (foi corrigido o título do texto e o nome do autor)
04 março, 2008
Um anúncio
Este blog é culto e quer-se culto; mas não resisto a colocar aqui isto.
Como dirá a esquerda sobrevivente (à custa de quem?), se é popular também é cultura!
Este foi o anúncio que atirou Steve Mizerak para o público geral, isto é, para além do público que já o conhecia do pool ou snooker. Grande jogador, com vários títulos nos EUA, foi a cerveja Miller que lhe deu grande fama.
A dificuldade do filme não esteve só em embolsar as bolas; na última, o Mizerak olhava para a branca para ver se metia a outra mas não era isso que ele tinha que fazer; ele tinha que levantar o copo de cerveja e olhar para a câmara de filmar, deixando a bola andar.
Isto está no livro Steve Mizerak's Pocket Billiards Tips and Trick Shots, do próprio e Joel H. Coehn.
Como dirá a esquerda sobrevivente (à custa de quem?), se é popular também é cultura!
Este foi o anúncio que atirou Steve Mizerak para o público geral, isto é, para além do público que já o conhecia do pool ou snooker. Grande jogador, com vários títulos nos EUA, foi a cerveja Miller que lhe deu grande fama.
A dificuldade do filme não esteve só em embolsar as bolas; na última, o Mizerak olhava para a branca para ver se metia a outra mas não era isso que ele tinha que fazer; ele tinha que levantar o copo de cerveja e olhar para a câmara de filmar, deixando a bola andar.
Isto está no livro Steve Mizerak's Pocket Billiards Tips and Trick Shots, do próprio e Joel H. Coehn.
01 março, 2008
Moral e bastonadas

Este intelectual é uma figura bizarra e até algo esquizóide. Diariamente (é uma espécie de pulsão obsessivo-compulsiva), em ritmo quase coreico, berra contra os juízes, que taxa de Torquemadas, mas esquece-se que Torquemadas nada poderiam, num sistema penal moderno, sem a passividade bovinóide de muitos defensores (quem conhece o destino dos condenados no âmbito da execução das penas abe bem do que falo). Depois, em bom estilo jacobino, clama por um sem número de incompatibilidades entre o exercício da advocacia e outras profissões ou cargos, mas parece nunca se ter lembrado que aquele nobre "munus" deveria ser incompatível, antes de mais, com a função de jornalista. Depois ainda, insurge-se contra o novo e efectivamente aberrante sistema de remuneração dos defensores, notório instrumento de funcionarização do advogado, mas não se dá conta, coitado, que um tal regime é em tudo próprio do estilo sans-cullote que é a marca de água as suas intervenções e em que, de modo intencional ou não, está a transformar a advocacia. Talvez com excepção do próprio, todos já se aperceberam da dimensão lilliputiana da autoridade moral do homem. Mesmo dentro da agremiação a que agora, por infelicidade dos agremiados, preside.
Relação análoga à dos cônjuges, mas mágica

Na recentíssima «reforma penal» a «unidade de missão» (cujo homem do leme era o agora Ministro da Administração Interna) alterou o crime de «maus tratos», cindindo-o em dois (o que até nem parece mal), alterando-lhe também a respectiva redacção (e aqui é que as coisas começam a ter graça).
Ora, no texto do novel artigo 152.º, agora crismado de «violência doméstica», ficou a constar que:
«1 — Quem, de modo reiterado ou não, infligir maus tratos físicos ou psíquicos, incluindo castigos corporais, privações da liberdade e ofensas sexuais:
a) Ao cônjuge ou ex -cônjuge;
b) A pessoa de outro ou do mesmo sexo com quem o agente mantenha ou tenha mantido uma relação análoga à dos cônjuges, ainda que sem coabitação; (...) é punido...»
(bold e itálico meus).
Com aquela expressão a bold itálico o legislador quis abranger no âmbito de tutela deste tipo de ilícito os «namorados» ou «namoradas» (ou vice-versa...).
A ideia parece ser mais ou menos esta: se dermos umas cambalhotas juntos; se trocarmos umas carícias; ou simplesmente se dermos uns passeios, seremos como marido e mulher, mas-só-para-efeito-da-«violência doméstica».
O problema é saber se apenas uma cambalhota permite aceder àquele estatuto; ou se só a partir de duas (!); ou se dois beijos na cara são já suficientes!!!
Importante-mesmo-é-que-a-rapaziada-lá-do-bloco-e-seus-amigos-da-democracia-dos-afectos-tenha-uma-bandeirinha.
Proporcionar REALMENTE à vítima um espaço de liberdade, para que ela própria, com a sua autonomia, em plena liberdade e com total responsabilidade possa decidir o que realmente quer... Isso continua por fazer... E até parece secundário.
As soluções equilibradas dão, claro, muito trabalho a elaborar. São também muito mais difíceis de montar e fazer operar na vida real. Costumam também sair mais caras do que simplesmente alterar uns artiguelhos do Código e fazê-los publicar no Diário da República.
Feito como está cabe lá tudo; o que é o mesmo que dizer que não cabe lá nada...
«1 — Quem, de modo reiterado ou não, infligir maus tratos físicos ou psíquicos, incluindo castigos corporais, privações da liberdade e ofensas sexuais:
a) Ao cônjuge ou ex -cônjuge;
b) A pessoa de outro ou do mesmo sexo com quem o agente mantenha ou tenha mantido uma relação análoga à dos cônjuges, ainda que sem coabitação; (...) é punido...»
(bold e itálico meus).
Com aquela expressão a bold itálico o legislador quis abranger no âmbito de tutela deste tipo de ilícito os «namorados» ou «namoradas» (ou vice-versa...).
A ideia parece ser mais ou menos esta: se dermos umas cambalhotas juntos; se trocarmos umas carícias; ou simplesmente se dermos uns passeios, seremos como marido e mulher, mas-só-para-efeito-da-«violência doméstica».
O problema é saber se apenas uma cambalhota permite aceder àquele estatuto; ou se só a partir de duas (!); ou se dois beijos na cara são já suficientes!!!
Importante-mesmo-é-que-a-rapaziada-lá-do-bloco-e-seus-amigos-da-democracia-dos-afectos-tenha-uma-bandeirinha.
Proporcionar REALMENTE à vítima um espaço de liberdade, para que ela própria, com a sua autonomia, em plena liberdade e com total responsabilidade possa decidir o que realmente quer... Isso continua por fazer... E até parece secundário.
As soluções equilibradas dão, claro, muito trabalho a elaborar. São também muito mais difíceis de montar e fazer operar na vida real. Costumam também sair mais caras do que simplesmente alterar uns artiguelhos do Código e fazê-los publicar no Diário da República.
Feito como está cabe lá tudo; o que é o mesmo que dizer que não cabe lá nada...
E «a justiça» que se amanhe.
Começa no entanto a saber-se que, afinal, aquela malta da «unidade de missão» é mais fina do que parece, e o que quis realmente fazer foi deixar uma marca moderna, digo, pós-moderna, no «novo» Código Penal.
Para quem ainda não saiba, a proficiente expressão «relação análoga à dos cônjuges, ainda que sem coabitação» tem como fonte inspiradora uma célebre anedota popular, que corre mais ou menos assim:
Um tipo volta-se para uma garina e diz-lhe:
- Olha lá, queres ter uma relação análoga à dos cônjuges comigo, mas mágica?
- Mágica?, pergunta ela.
- Mágica como?
- É assim, responde ele, nós temos uma relação análoga à dos cônjuges e depois tu desapareces!!!
.
Ora toma. Já perceberam? Esta coisa de andar a meter anedotas no Código Penal não é para qualquer um. É coisa de génio. Está ao nível do Código Da Vinci. Oh se está.
Começa no entanto a saber-se que, afinal, aquela malta da «unidade de missão» é mais fina do que parece, e o que quis realmente fazer foi deixar uma marca moderna, digo, pós-moderna, no «novo» Código Penal.
Para quem ainda não saiba, a proficiente expressão «relação análoga à dos cônjuges, ainda que sem coabitação» tem como fonte inspiradora uma célebre anedota popular, que corre mais ou menos assim:
Um tipo volta-se para uma garina e diz-lhe:
- Olha lá, queres ter uma relação análoga à dos cônjuges comigo, mas mágica?
- Mágica?, pergunta ela.
- Mágica como?
- É assim, responde ele, nós temos uma relação análoga à dos cônjuges e depois tu desapareces!!!
.
Ora toma. Já perceberam? Esta coisa de andar a meter anedotas no Código Penal não é para qualquer um. É coisa de génio. Está ao nível do Código Da Vinci. Oh se está.
22 fevereiro, 2008
Democracia bem oleada
Apesar de o tempo ser já de campanha eleitoral nos EUA, mesmo assim impressiona o modo como as pessoas se mobilizam, escrevem e protestam. Esta é para mim a questão central, embora a temática mobilizadora também seja interessante.Poderia simplesmente fazer uma tradução sintetizada do texto infra e, com um pouco de sal e pimenta ficava o comentário feito. Mas as coisas sabem realmente melhor quando se saboreiam também com os olhos. Por isso achei melhor fazer o «cut»; e cá vai:
.
«A recent New York Times article examined a number of decisions by Senator John McCain that raised questions about his judgment over potential conflicts of interest. The article included reporting on Mr. McCain’s relationship with a female lobbyist whose clients often had business before the Senate committee led by Mr. McCain. Since publication of the article, The Times has received more than 2,000 comments, many of them criticizing the handling of the article. More than 4,000 questions have been sent via e-mail to The Times on Thursday night and Friday. Editors and reporters who worked on the article are answering some of the questions on Friday.»
13 fevereiro, 2008
O papel
A um conhecido meu morreu a avó. Nada de anormal, particularmente para quem ainda tem avós.
Acontece que ele, que trabalha, como bom neto, foi ao funeral; ou seja, tem que justificar a falta ao patrão.
Ele justificou dizendo precisamente que a sua avó tinha morrido. Para aceitar a falta como justificada, o patrão pediu uma declaração da funerária.
Aqui é que eu começo a estranhar...
A funerária atesta o quê? Que o rapaz foi ao funeral? Que a avó morreu? Que ela, a funerária, fez o funeral?
Eu não sou desta área mas também trabalho e conheço a lei das faltas; tenho a certeza que ela não fala em funerais mas só em mortes. O parente morre e, automaticamente, temos uma licença de x dias; não interessa se vou ou não vou ao funeral. Mas já interessa que o morto seja um dos parentes indicados na lei (ou pelo meu lado ou pelo da minha mulher); ora, a morte das pessoas é atestada pela certidão de óbito.
Não faço ideia do valor que pode ter a declaração (e qual o seu conteúdo) da funerária mas será que ela substitui a certidão de óbito?
Isto não interessa nada porque o que realmente interessa é um papel. O papel é a prova do facto que se clama mesmo que esse papel não tenha valor nenhum.
Ora, como é muito mais barato o papel da funerária (que, afinal, também faz o funeral) do que o custo da certidões de nascimento e óbito, e se calhar de casamento, para estabelecer que o morto é realmente o parente do trabalhador que faltou, é natural que as funerárias desempenhem hoje mais um serviço público: o de passar o papel que a velha morreu.
Ou seja, a palavra do trabalhador não vale nada; precisa de um papel. Mas isto não interessa nada.
O fundamental mesmo, claro, é que haja qualquer papel!
Acontece que ele, que trabalha, como bom neto, foi ao funeral; ou seja, tem que justificar a falta ao patrão.
Ele justificou dizendo precisamente que a sua avó tinha morrido. Para aceitar a falta como justificada, o patrão pediu uma declaração da funerária.
Aqui é que eu começo a estranhar...
A funerária atesta o quê? Que o rapaz foi ao funeral? Que a avó morreu? Que ela, a funerária, fez o funeral?
Eu não sou desta área mas também trabalho e conheço a lei das faltas; tenho a certeza que ela não fala em funerais mas só em mortes. O parente morre e, automaticamente, temos uma licença de x dias; não interessa se vou ou não vou ao funeral. Mas já interessa que o morto seja um dos parentes indicados na lei (ou pelo meu lado ou pelo da minha mulher); ora, a morte das pessoas é atestada pela certidão de óbito.
Não faço ideia do valor que pode ter a declaração (e qual o seu conteúdo) da funerária mas será que ela substitui a certidão de óbito?
Isto não interessa nada porque o que realmente interessa é um papel. O papel é a prova do facto que se clama mesmo que esse papel não tenha valor nenhum.
Ora, como é muito mais barato o papel da funerária (que, afinal, também faz o funeral) do que o custo da certidões de nascimento e óbito, e se calhar de casamento, para estabelecer que o morto é realmente o parente do trabalhador que faltou, é natural que as funerárias desempenhem hoje mais um serviço público: o de passar o papel que a velha morreu.
Ou seja, a palavra do trabalhador não vale nada; precisa de um papel. Mas isto não interessa nada.
O fundamental mesmo, claro, é que haja qualquer papel!
01 fevereiro, 2008
Um dia negro
Há cem anos a desgraça abateu-se sobre Portugal. Dois malvados, o Costa e o Buíça, foram a mão executora dos escuríssimos desígnios de outros desalmados piores ainda. Estes últimos jazem no Panteão, têm estátuas e placas pelo país fora, foram figuras de proa do catastrófico e maléfico regime de opereta que dois anos e pouco depois do regícidio eles mesmos vomitaram sobre a Pátria, e enfim deixaram uma descendência política que anualmente, a 5 de Outubro, como súcia de vampiros, sai das lojas e se junta aqui e ali, decrépita, leprosa, asquerosa, a lançar "vivas" senis a essa meretriz da república.Desde a infâmia, Portugal foi sempre decaindo, cada vez mais, de torpeza em torpeza, esmagado por uma pilantragem pelintra e voraz para a qual não encontrou ainda remédio. Além disso (maravilhas da falta de memória), há quem chegue a alçar o crime à dignidade de gesto benfazejo e "libertador" (!), fazendo dos carbonários e dos pedreiros republicanos em geral, como de praticamente todos os demais psicopatas da política nacional de então, uma espécie de campeões do povo e, pasme-se, da democracia - a linda democracia outorgada à nação em 1910, como se antes houvesse ditadura, e cuja tumultuária selvajaria engendrou finalmente a ditadura corporativa, infeliz mas imprescindível acto de higiene que a mesma nação teve que suportar ainda por várias décadas.
Tudo isto já nada mais é do que "momentos perdidos no tempo como lágrimas à chuva"*. Basta recordar, para ter noção do calado da tragédia, a crua e imediata dimensão humana respectiva, prenúncio alegórico do que à Pátria cedo viria: um Rei bom e um Princípe Real inocente, pai e filho, abatidos a tiro à vista da mulher e mãe; uma mulher e mãe, mais do que Rainha, aflita, procura proteger a família e afastar os monstros com aquilo que tem na mão - um ramo de flores.
Muitos anos depois, em Paris ocupada, esta Senhora, francesa de nascimento, idosa, exilada, hasteava na sua casa a bandeira nacional - a feia bandeira trazida pela república celerada, mas em todo o caso a bandeira nacional. Quanto à actual Constituição desta vil república que temos, reza, impante e avara, no seu art. 288.º, al. b), que não pode ser revista sem respeito pela forma republicana de governo, assim pateticamente assumida como presuntivo sinónimo de democracia e proclamada como uma espécie de alcançada meta da História. São formas de estar.* Phillip K. Dick, "Do droids dream on electric sheeps"
Subscrever:
Mensagens (Atom)

