Cícero, denunciando Catilina no Senado

Cícero, denunciando Catilina no Senado

11 maio, 2007

Dogma I

Tratamos o dogma como uma aberração. Como algo repugnante. Esta justa e resoluta condenação do dogma, que emana das mais nobres virtudes democráticas e liberais, é quase sempre acompanhada por uma certa relutância analítica. Tratemos, portanto, de suspender, heuristicamente, esta nossa aversão ao dogma e de começar a tentar compreender este fenomeno insidioso.
Como é sabido, um dos denominadores comuns de todos os dogmas é a redução brutal da realidade a alguns princípios elementares e infalíveis. O totalitarismo soviético encontrou o seu impulso totalitarista na noção da infalibilidade cognitiva que permeia todo o vasto sistema conceptual do materialismo dialéctico. O totalitarismo nazi, por sua vez, emanou (essencialmente) do pressuposto inquestionável da superioridade racial.
O totalitarismo teocrático, mais complexo e radical do que os seus dois congéneres, procura no transcendentalismo divino a justificação dos seus hediondos actos.
O totalitarismo científico dos comunistas contemplava, apesar de tudo, a sua auto-falsificação pela via empírica. Se a nova sociedade comunista não emergisse das cinzas da segunda guerra tudo poderia ser posto em causa, na privacidade da reclusão, nos clubes de dissidentes underground e nas celas siberianas. Tal foi o trauma das expectativas pervertidas de que ainda hoje se sentem as repercussões na Rússia de Putin. Foram poucos os que, dez anos após a “gloriosa” revolução de São Petersburgo, não compreenderam que o novo homem comunista era uma ficção ao serviço de uma insidiosa nomenklatura que doravante recorreria ao Gulag para se agarrar ao poder. A maioria conhecia a “nobre mentira”, mas temia Moscovo. Os próprios lideres comunistas sabiam-no, como nos ensinaram Giuseppe di Palma e Jerry Hough, dois dos mais notáveis e perspicazes estudiosos do império vermelho.
A presunção da superioridade racial nazi foi mortalmente ferida por uma derrota devastadora. Os ubermensch não perdem guerras. Se as perdem, não são ubermensch. O totalitarismo teocrático não é susceptível de falsificação empírica porque a crença transcendental raramente desce ao mundo dos factos. As suas derrotas nunca são derrotas mas apenas momentos num eterno confronto. A crença transcendental tem um efeito peculiar na vivência do tempo. Instrumentaliza-o de forma absoluta: o único tempo, o tempo que conta, é o tempo vindouro da implantação da ulema, da comunidade de crentes, na terra. É desta aversão ao empirismo, ao mundano, que provém a instrumentalização brutal da vida humana. É dela que brotam os ataques suicidas.
É na presunção da infalibilidade que se encontra a génese perversa da constituição do dogma e do dogmático.

(a continuar...)

10 maio, 2007

Aviso à navegação



Cuidado malta! O sexo oral pode causar "cancaro", mas, em princípio, só nos depravados e debochados. Parece que o risco é 9 vezes superior para aqueles que se divertem com mais do que 6 parceiros.

09 maio, 2007

Continua...

A canalha infame, a tropa de choque das hordas tirânicas do esquerdalho, ainda não está satisfeita. Prossegue, pelas cidades francesas, incendiando automóveis, partindo montras e causando desacatos de toda a espécie. Contra o fassismo. Como já disse, entre esses bandos pululam adeptos do democratíssimo PSF - já não escondem, já não se limitam a deixar o trabalho "sujo" às habituais cambadas de "okupas" e "no globals" em geral. Não, agora, alguns deles lançam as próprias mãos à obra, esquecendo o decoro de quem gosta de se apresentar como puríssima vestal da democracia.
As figuras de proa, essas, mantêm a sua atitude de benevolente displicência, deixando transparecer a verdadeira avaliação que fazem da coisa: a rapaziada dos calhaus e cocktails molotov até tem razão, afinal eles são "dos nossos"...
Assim, um senhor que parece ser o líder da seita do PSF, veio à télévisão "apelar" ao fim da violência (não terá encontrado um eufemismo qualquer!?), dizendo, entre outras pérolas, que tais hordas melhor farão em dentro de um mês virarem a sua "ira" contra o Sr. Sarkozy nas urnas, votando no PS para as legislativas, pois claro, que isso sim causará problemas ao malandro da direita, cuja ignóbil agenda é beneficiada com a dita violência. Ele lá sabe a quem pertencem esses bandos e o quê ou quem os move.
Entre nós, continua a causar um misto de repugnância e riso a forma como a imprensa aborda a questão. O emprego da retórica habitual, do "patofalar" que é a marca de água da "intelectualidade" de esquerda, não cede um milímetro. Ontem, no noticiário das 20.00h, na RTP1, os bandos de canalhas eram referidos como "grupos de jovens contestatários que não se conformam com a vitória de Sarkozy". Com o emprego frequente do termo "jovens" (uma coisa sempre boa e santa, como se sabe), o apresentadeiro de serviço lá encontrou tempo de explicar que na opinião de tais criaturas o Sr. Sarkozy podia ter ganho as eleições, mas continuaria a ter a oposição de uma grande parte da França.
Não se conformam!? Não duvido... A única arma contra esta comandita é a inteligência, mas é cada vez mais rara.

08 maio, 2007

Uma cabeça torturada


«”Mais de um terço dos soldados norte-americanos no Iraque inquiridos pelo Exército acreditam que a tortura deve ser permitida se ajudar a reunir informações importantes sobre insurrectos. Quatro em dez aprovam abusos ilegais se estes salvarem a vida de um companheiro. Estes são alguns dos dados de um inquérito realizado pelo Pentágono a 1767 militares – as entrevistas realizaram-se no Iraque, no Outono do ano passado.” (Público) São estes os soldados que lutam pelos valores ocidentais

Devo dizer, antes de mais, que sou daqueles que subscrevo as palavras do autor castelhano (Tomás y Valiente) de uma obra clássica sobre a tortura, em termos de considerar que se há algum direito fundamental absoluto é o direito a não ser torturado. «Nunca. Nadie. Sin excepciones casuísticas ni limites difusos: “en nigún caso”». Da perspectiva dos limites da intervenção do Estado na esfera do cidadão, é assim que as coisas devem ser vistas e ponto final. A redefinição do conceito de tortura subterraneamente ensaiada pelo Departamento de Justiça dos E.U.A. nos famigerados Memorandos Sobre a Tortura (2002-2004) e doutrinariamente patrocinada por alguns (John Yoo) e apoiada por outros (Alan Dershowitz), de forma a cobrir com um manto legitimador infames actos de tortura perpetrados no Iraque, fugindo, inclusivamente, às obrigações emergentes de convenções internacionais de que os E. U. A. são parte, é, assim, dizia, de censurar sem hesitações e de repudiar sem tergiversações. Exemplo destas, é o dado na obra de Dershowitz, Why Terrorism Works: Understanding the Threat, Responding to the Challenge (2002), onde aquele autor candidamente propôs que nos “casos extremos” um juiz pudesse emitir “mandados de tortura” (curiosamente, uma solução inglesa vigente na centúria de 1540 a 1640).
Mas o que já é sinal patognomónico de uma pavloviana atitude anti-americana (= politicamente correcta), é o modo pronto e categórico, moderno e desempoeirado, como se pretende extrair dos resultados de um estudo da natureza do acima aludido um juízo geral sobre os combatentes americanos no Iraque, sobre o exército norte-americano e, porque não dizê-lo, sobre os americanos em geral (porque é este o tom, porque é este o inequívoco objectivo). Como se em cada um germinasse um torquemadazito, como se quando em cada qual não fosse de presumir um Diogo de Deza em essência, ao menos o fosse em potência. Sim, porque de acordo com o citado bloguista, não é de pressupor em cada marine um soldado endurecido pelo treino, embrutecido pelo combate e solidário por condição e circunstância. Não, muito pelo contrário! Deveria antes presumir-se que em cada soldado norte-americano em guerra palpita, lateja, pronto a revelar-se, um ilustrado Voltaire, um iluminado Thomasius ou mesmo um resplandecente Marquês de Beccaria! Porque eram assim os soldados da U.R.S.S., como são ainda os da Coreia do Norte ou de Cuba (coisa que só se pode intuir, umas vez que tirá-la a limpo implicaria que os respectivos Ministérios da Defesa elaborassem um estudo como o citado…). E os americanos, dados a manias de democracia, deviam sê-lo ainda mais.
Ou seja, não sei o que mais me irrita: se a acefalia do argumento, se a indecência da intenção.

Combustões v. Dragoscópio



Atenção aos desenvolvimentos do titânico embate entre o Conselho da Capitania Geral e Sir Francis Drake.

Sic transit gloria mundi...

A deriva totalitária da esquerda, que em rigor não é deriva, mas um rumo inscrito no seu programa genético, torna-se mais evidente nestes dias de rescaldo eleitoral em França. Os do costume, os que de ordinário incendeiam viaturas e lojas pelas cidades quando algo lhes não agrada, normalmente uma qualquer reunião do G8, mas potencialmente qualquer pretexto, o mais anódino, como a abertura de um McDonald's (esse símbolo infame da opressão capitalista), tomaram-se agora de fervores revolucionários por causa do acto eleitoral que levou Sarkozy à presidência (com 53% dos votos).
Aparentemente, o facto de a Sr.ª Ségolène não ter sido eleita fere-lhes a sensibilidade democrática, que usam à flor da pele. Vai daí, não tolerando na presidência esse ogre fassista que indubitavelmente o Sr. Sarkozy é, de quem porventura esperam menos "compreensão" e "diálogo" do que a dita senhora lhes teria podido prodigalizar e temem que coloque em perigo as mais amplas liberdades, coitadinhas, sempre ameaçadas pela direita, largam a atear fogo em mais uns veículos, quebrar umas montras, apedrejar uns transeuntes e enfrentar corajosamente a polícia, costumeira serventuária do nazi-fassismo-capitalista-globalizante-neo-ultra-liberal-racista-e-machista-inimigo-da-coltura-que-é-só-nossa-cá-da-esquerda.
Por cá, tais criaturas dispõem de uns primos, e se lá as coisas forem parecidas com o que entre nós ficou moda, aguarda-se abertura de inquérito à actuação das forças policiais, não vão estas ter empregado zelo e força excessivos a reprimir esses inocentes devaneios idealistas próprios da juventude.
Ora, o que eu gostaria era de ver o que se passava, qual era a reacção dos democratas encartados e de capa e espada, se um bando de canalhas homólogos mas de sinal contrário, por exemplo os da seita do Sr. Le Pen, largassem a fazer coisa parecida na eventualidade de uma vitória da Sr.ª Ségolène. Já adivinho: caía o Carmo e a Trindade (por assim dizer). Pela Europa fora, urros de indignação jorrariam, ininterruptos, da boca de todo e qualquer bicho careta parlamentar, governativo ou meramente oficiante da imprensa bem pensante. Não haviam de faltar marchas de solidariedade, gestos de desagravo vários e comoventes, apelos heróicos à criação de novos crimes, defesa pragmática de procedimentos penais expeditos e mesmo choros por intervenção das forças armadas.
Como não foi o caso, isto é, como de novo se tratou de uma canalha repelente da extrema-esquerda (e também, note-se, de apoiantes da dita Sr.ª Ségolène, militantes do impoluto PSF), a retórica orwelliana costumeira foi como sempre o instrumento de minimização dos factos e do seu relevo e alcance político. Entre nós, a novilíngua de pau com que a comunicação social nos agride e tenta estupidificar quotidianamente, referiu-se aos acontecimentos e seus autores como "protestos" de "grupos de jovens contestatários" e outros tranquilizadores eufemismos quejandos (foi o caso dos noticiários da TVI e da SIC). Lá para o meio da notícia, na TVI, um apresentadeiro deixou que a boca lhe fugisse para a verdade e referiu-se a "grupos de extrema-esquerda" - muitas destas e sai despedido por notória incapacidade de interpretação da realidade que lhe cumpre transmitir ao povo.
Não é com debates em programas télévisivos de sexta ordem que a malta a que a esquerda quando calha chama povo pode perceber as diferenças actuais entre direita e esquerda - bastava que prestasse atenção, coisa de que certamente já é pouco capaz. Ficam os debates, com o espectáculo deprimente do decrépito e ainda mais caquético Sr. Soares (exemplo vivo de que a esquerda não é capaz de - e nem quer - tirar do armário os seus muitos esqueletos, continuando perdida de amores pelos totalitarismos e tiranias que gerou e que a geram), a poluir o espaço de propagação das ondas sonoras da voz do Professor Adriano Moreira.

Banzai! (bis)




S. Miguel é a muitos títulos um paraíso. Sexta-feira, dia 04 de Maio, um honesto cidadão como este vosso criado logrou "desenfiar-se" das agruras do trabalho, em Ponta Delgada, pelas 16.00 h. Antes das 17.00 h estava na margem da Ribeira da Alegria, freguesia das Furnas, cana montada, calções, sapatilhas, mochilita às costas e ala para dentro de água. Ao segundo lançamento já saltitava na corrente a primeira truta, amostra bem ferrada na boca. Pequenita, voltou para a água, o que se repetiu mais duas vezes. Ainda assim, no espaço de uma hora e corridos quinhentos metros de ribeira, duas com bom tamanho propiciaram luta entusiasmente e vieram para casa, onde este esforçado contribuinte conseguiu chegar a horas aceitáveis para a janta, sem complicações conjugais de maior. Ardei pois de inveja, ó aficcionados do continente, condenados à escassez de rios e ribeiras poluídos e desertos. Hei-de passar o Verão nisto, até 31 de Outubro. E quando não forem as trutas, serão os peixinhos do mar. No domingo, 06 de Maio, foi coisa para o dia todo, das 05.00 h às 20.00 h - gorazes, cantaris, carapaus de kilo, eu sei lá, o diabo. Os chernes faltaram à chamada, mas tudo isso será matéria para outra posta.

Adail Baquis (in the house)

"Eu sei que por vezes dramatizo demais determinadas questões, mas a questão política neste momento é-me causa de certa angústia. Desde há bastante tempo que ando com uma crise de identidade política, provocada precisamente, pela incongruência dessa classe em relação à prática das suas (supostas) ideologias. Assistimos hoje (ontem) a um debate interessantíssimo sobre os quadrantes políticos de esquerda vs direita na Europa. E depois?, o que verificamos na prática? Eu pelo menos só consigo ver a escravatura do défice, da tecnocracia, num modelo educacional que tende em tornar os cidadãos seres autómatos, etc., só para citar alguns. O meu medo é que, por ter de tal forma incutido que tudo não passa de jogadas de marketing político, chegue a um ponto tal, em que não consiga distinguir um bom político de um mau politico, de um com verdadeiras preocupações sociais de outro cujas preocupações só estejam na agenda durante o período de campanha. Contudo, sou uma optimista (não ao modo “panglossiano”); quando muito, se a clivagem entre as classes sociais se acentuar, quando aos mais desfavorecidos, que perdem privilégios a cada dia que passa, lhes começarem a doer os “ossos” e já tiverem pouco a perder, isto estoura, e desenvolve-se uma maior consciencialização das necessidades sociais (nisto eu e o meu amigo Marx estamos de acordo). Ainda que, tenha plena consciência de que as “forças capitalistas” encontram sempre forma de sobreviver e estender os seus tentáculos, pois os "merlins" não desaparecerão (mas que pelo menos tenham nomes menos complicados).
Nota: não, não sou comunista nem algo que o valha, antes o fosse, pois, assim, não estaria nesta crise de identidade. Contudo, nunca faltei com o meu voto quando a isso sou chamada. "
Adail Baquis

Congratulo-te por não seres comunista nem halterofilista. Sim, um grande debate. Fiquei a saber que Miguel Portas precisa de um dentista e de uma operação urgente às amigdalas. A jornalista não desapontou. É uma sintese do ET (Extra Terrestre) com o Diogo Freitas do Amaral. Jerónimo caiu nos tentáculos implacáveis dos nossos merlins. Ficou preso aos testículos da Odete. O Dr. Adriano Moreira não desilidiu, como sempre. Uma notável licção de aritmética. Soares vive obcecado com o Bush. Um dia aparece-lhe um neo con a dar-lhe o penico a meio da noite. Dirá "não, é o hemorroidal, meu caro comparsa."

07 maio, 2007

Visitem a vidente, por favor

Hoje é um excelente dia para visitar o causa nossa. A vidente de serviço publicou um artigo sobre o debate presidencial francês que merece ser lido. Perspicácia. Erudição. Sensatez. Racionalismo crítico. São estas as quatro grandes virtudes das suas "visões."

04 maio, 2007

(parentese 1)

"Quando se traduz em francês 'to enforce the law´, por exemplo, por `aplicar a lei´, perde-se esta alusão directa, literal à força que, do interior, vem lembrar-nos que o direito é sempre uma força autorizada, uma força que se justifica ou que é justificada ao aplicar-se, mesmo se esta justificação pode, por outro lado, ser julgada injusta ou injustificável. Não há direito sem força. Kant lembrou-o com o maior dos rigores. A aplicabilidade, a enforceability, não é uma possibilidade exterior ou secundária que viria ou não juntar-se, suplementarmente, ao direito. É a força essencialmente implicada no próprio conceito da justiça como direito, da justiça enquanto ela se torna direito, de lei enquanto direito."

Jacques Derrida, Força da Lei, pp.12 (Campo das Letras)

03 maio, 2007

O Método Socrático

Sócrates não é socrático. Perverteu a dialéctica grega. Revoltou-se contra a sua nobre cultura. Pontapeou Aristóteles e Platão nos genitais, tratou de exilar Protágoras para o rendimento mínimo, e fechou o ginásio. Uma análise estatística dos seus inimitáveis actos discursivos revela uma verdade inquestionável. Não se trata de uma mera repetição de “conteúdos”, de propósitos que são, mui naturalmente, apresentados de formas diferentes. Não, nada disso! Trata-se de uma repetição de modos discursivos (regras, gestos, automatismos), um sacrilégio intolerável para os seus companheiros da polis que sempre valorizaram o percurso sinuoso da reflexão abstracta e a ponderação cuidada de argumentos distintos. O homem escolheu a via da repetição sintética: mensagem e “veículo” da mensagem… são a mesma coisa. Para alguns “especialistas”, este deve ser o principal propósito de qualquer estratégia política consistente: O que se ouve deve coincidir exactamente com o que se vê. O problema está no “exactamente”. Exactidão científica ao serviço da perversão da autenticidade.

Apercebi-me disto quando a questão da “confiança no país” foi proclamada como um desígnio essencial do executivo. Foi triste. Não por ser uma manobra de marketing político (não sejamos ingénuos) mas por não poder ser uma política do governo. Pensar que a resolução dos problemas deste país pode, e deve, começar com uma sessão de psicoterapia…é obra!

O politicamente correcto emergente, ou vigente, também compartilha desta lógica: se alterarmos a linguagem transformaremos a realidade. Se a crença na engenharia linguística for eficaz, a engenharia física, a dos comportamentos, vem logo a seguir. Este sincronismo dá-me cabo dos nervos.

vita activa (presunção em água benta)

Antes de mais, gostaria de cumprimentar os membros fundadores deste fantástico blog e agradecer o amável convite para nele participar. Espero que, juntos, possamos acirrar os circuitos neuronais cómico-trágicos dos leitores e, quiçá, papar uma trutinha da lagoa do fogo.

Prometo regressar brevemente com a primeira contribuição.

ps: roubei o termo vita activa a uma filósofa, Arendt.

Abraços para todos e obrigado!

Até daqui a pouco.

Vitalidades


O Prof. Vital num seu post do Dia do Trabalhador pede “um pouco (só um pouco) mais de seriedade” (interpolação minha). Com coisas sérias não se brinca. A razão para a indignação prende-se com o facto de o DN ter noticiado que, como modo de comemorar os 100 anos da República (como se a coisa merecesse comemoração), a Comissão de Projectos das Comemorações do Centenário da República teria proposto a consagração legal dos casamentos homossexuais (ou gay, como os ditos preferem). O Prof. Vital, ayatollah do politicamente correcto e reserva moral da Nação, diz que não é bem assim, e que o próprio DN inventou aquela ideia a partir de uma frase do Relatório da Comissão de Projectos das Comemorações do Centenário da República, que reza assim no ponto 3.3.: “no campo das relações sociais: proceder à revisão do código civil em matéria de relações familiares”. O Prof. Vital nega que desta frase se possa extrair a conclusão do DN, jornal que, por isso, de acordo com o ilustre académico, é (imagine-se, o DN da Fernanda Câncio) leviano, populista e preconceituoso.
Claro que o Prof. Vital, como presidente da dita comissão, pode bem fazer as interpretações autênticas que entender do texto do citado relatório. E até pode, envergonhado, fazer uma retirada estratégica. O que não pode – ainda que amiúde o queira – é fazer dos outros parvos. Primeiro, todos conhecem o ambiente instalado, desde a chegada ao poder do prof.-dr.-eng. Sócrates, no sentido de fazer a Nação engolir mais este sapo repelente. Depois, o próprio Prof. Vital, o tal que é presidente da tal comissão-destinada-a-fazer-da-comemoração-da-República-uma-festa-do-PS, não desconhecerá que mais adiante no texto do documento se diz que “Em todo o caso, o centenário da República deveria ser inserido no mainstream da acção política governativa até 2010 em tudo o que tenha que ver (…) com a promoção da igualdade no(s) plano(s) (…) do género (…).” A maçonaria, por mera coincidência, apoia a proposta. Posto isto, e a não ser que o Prof. Vital estivesse a pensar na consagração legal da poligamia, da poliandria, da trigamia ou da bigamia[1], cumpre perguntar: quem é que não é sério, quem é Senhor Professor?


[1] No que não pode fazer-se fé. Com efeito, na última edição da sua CRP Anotada (2007), p. 562, o ilustre (co)autor refere que “O primeiro dos requisitos do casamento, na sua noção tradicional, é o de que se trata de um contrato entre duas pessoas de sexo diferente, o que afasta as uniões de mais de duas pessoas, bem como as uniões de duas pessoas do mesmo sexo (sem prejuízo da eventual liberdade legislativa de atribuir a estas efeitos jurídicos idênticos ao casamento.” (itálico acrescentado). Não se explica, na anotação, a razão de a mesma liberdade não poder ser reconhecida a propósito da poligamia e de outras espécies de ajuntamento.

02 maio, 2007

Salmo Trutta


Pela estrada do Paraíso, a caminho do genocídio.

Banzai!



Um dia glorioso, como se esperava! Juntaram-se quatro aficcionados e a bicheza colaborou decentemente. Belo dia, sem chuva, e paisagem de cortar a respiração. Pela minha parte, e roam-se de inveja, descontando três que voltaram para a água, devido à pequenez do tamanho ou à magreza excessiva, vieram três bichinhas de porte comedido e mais uma latagona de 42,5 cm e 1,050 Kg (foto acima) - não é um record, mas consolou; entre morder e ser metida no cesto deu três minutitos de luta e pura adrenalina. O Tortor também molhou a sopa numas poucas delas, mas tudo coisas de moderado tamanho. Um outro compincha além das pequenitas tentou estragar-me o dia tirando uma ligeiramente maior que a minha (estou a falar de trutas). Azar teve o quarto expedicionário à Lagoa do Fogo - nem um bichinho lhe fez a vontade...
A faina começou às 05.45 h e acabou às 09.45 h. Por volta das 08.00 h houve lugar para umas sandoscas variadas (de presunto, de salmão e de queijo da serra - do legítimo, claro), tudo regado com uma botelha de Calabriga 2004, ditada por ligeira alteração de planos que levou à postergação do Quinta do Vale Dona Maria 97, guardado para melhor ocasião. O copo era de vidro.
À noite, em casa, prodigalizei à patroa e à prole uma truta assada no forno, recheada com presunto, em cama de cebola e alho, regada com fio de azeite, copázio de vinho branco (seco), muito sumo de limão, sal, uma pitada de pimenta e uma corzinha de colorau. As pequenas, desprovidas de cabeça e espinhas (filetadas - dois filetes por bicha) foram assadas em assadeira autónoma, segundo a mesma regra, entremeados os filetes com as fatias do presunto. Para acompanhamento escolhi um puré de batata (densidade significativa, para receber a molhanga da assadura) com aroma de noz moscada. O vinho não deixou memória, hélas...