Cícero, denunciando Catilina no Senado

Cícero, denunciando Catilina no Senado

13 setembro, 2007

O diário de Kate


Parece que o diário de Kate McCann foi apreendido pela Polícia Judiciária. Dos “donos da liberdade” indígenas, nem um pio. A imprensa, por seu turno, aborda a questão com uma desconcertante naturalidade, como se a invasão da esfera íntima fosse uma inevitabilidade da investigação criminal. Não se coíbe, até, de se erigir em sórdida porta-voz de alguns dos pormenores ali descritos.
Por definição, um diário é um repositório de reflexões íntimas, de encontros e confrontos de cada um consigo mesmo, (como alguém já disse) "um confessionário sem confessor". É por isso que reputo extravagante, a mais de repugnante, a dita apreensão que, como se não fosse suficiente, ocorreu há já um mês e só agora foi presente ao juiz, numa altura em que, alegadamente, “ já não será de grande utilidade para a investigação”. Ou, por outras palavras, a PJ terá ocultado à autoridade judicial a apreensão do diário em causa, usou a informação que dele extraiu e, quando ele deixou de ser necessário, … apresentou-o ao juiz de instrução criminal, assim tratado como uma espécie de receptador de material probatório. Resumindo e concluindo, cheira-me que este caso vai acabar numa vergonhosa bronca mediático-judiciária.

3 comentários:

chéché disse...

Este paízito naõ pára de surpreender. É o VALE TUDO.
Já há muito tempo que não estudo processo penal mas tenho a certeza q tal meio de prova era proibido por razões que nem careciam grandes explicaçães:a dignidade da pessoa humana e a defesa da sua esfera intimíssima eram valores tão enraizados na nossa consciência colectiva que qualquer atentado teria que ser muitissímo bem justificado. Enfim, devo estar a ficar chéché...

Kzar disse...

É realmente inacreditável o que a fazer fé na imprensa sucedeu e pode estar prestes a receber chancela judicial. Espero que alguém com bom senso e decência endireite já as coisas, antes que dê sarilho do grosso.

Quanto à dita imprensa, já não encontro palavras para os respectivos trambiqueiros. Face à tal questão do diário, andaram a chamar bruxo-psicólogos para explicar ao povo como se poderá "traçar o perfil psicológico" da mulher a partir dele. Nem por um segundo lhes ocorre que a possibilidade de ser apreendido é em si mesma gravíssima e encerra elevado potencial de ferir a simples decência, mais até do que as regras jurídicas relevantes em matéria de processo penal. Uma lástima, esta corja deste país à beira da falência.

Anónimo disse...

Havia prometido a mim mesmo não escrever uma linha sobre o caso em fundo, mas não há ... que tanto aguente...
Dizem-me que para a inefável apresentação ao juiz de tal disparate, que irá desembocar em mais 15 dias (pelo menos; logo a seguir à novela Scolari)de vitupérios ao sistema judicial (com os sociólogos e psicologos do costume a dizerem as maiores barbaridades), o MP lhe fixou 24 horas para «decidir»!!!
Não sei se acredite nisto!!!

Artolas Olho-Vivo