Cícero, denunciando Catilina no Senado

Cícero, denunciando Catilina no Senado

31 maio, 2007

Espuma dos dias

Não resisti, e ponho aqui, trazido directamente do "Sine Die", um post brilhante, de Eduardo Maia Costa, versando sobre tema que a triste comunicação social que temos pôs na ordem do dia. Reproduzo-o na íntegra e permito-me fazer apenas uma observação ao seu autor: não são ideias fascistas, o que os histéricos da moda propõem; isso era mau que chegasse, mas não é exacto. O que propõem são ideias comunistas, do mais retinto estalinismo, e é bom que se perceba a diferença, porque um dos males destes tempos perigosos em que vivemos é o de nem sempre vermos por onde o inimigo está a atacar; de que lado se está a levantar a Besta. Em todo o caso, aqui vai.
«30 Maio 2007
Caça aos pedófilos
Nos últimos anos a pedofilia foi erigida numa das grandes preocupações nacionais e internacionais e os pedófilos juntaram-se aos terroristas e aos traficantes de drogas como novo contingente de inimigos da humanidade, novos rostos de Satanás, passada que está a guerra fria e os inimigos de então, agora domesticados.A legislação penal endureceu, quer pelo agravamento das penas, quer pelo próprio alargamento do conceito de "criança" (que vai até ao final dos 13 anos), e também das previsões penais, que abrangem a mera detenção de materiais pornográficos, desde que destinados a serem exibidos a crianças. A investigação destes crimes torna-se prioritária (a nova LPC dispõe). E a acção dos tribunais requer-se drástrica, intransigente, impiedosa.Porque, se assim não for, aí está a comunicação social vigilante, nova consciência moral da comunidade, a apontar o dedo em riste aos juízes complacentes, convocando a justa ira popular contra aqueles senhores.O puritanismo latente (ou talvez mesmo patente) nessa campanha, que quer fazer de pré-adolescentes (se não mesmo adolescentes) seres virginais anteriores ao pecado original, é tão bafiento que enoja.Aliás, é absolutamente contraditório com a "pedagogia" negativa que a TV (sobretudo esta) faz sobre as crianças, não só na publicidade, como na programação geral, extremamente agressiva para a sua formação, nomeadamente para a educação sexual (facto tão geralmente reconhecido como escamoteado).Mas há pior: dá-se a voz a comentadores (ir)responsáveis que reclamam exaltados as "penas máximas" (?) para os pedófilos e inclusivamente a castração dos ditos. Ora isto, meus senhores, é, sem tirar nem pôr, a promoção de ideias
fascistas. Terão consciência disso? Não sei se será pior a consciência ou a inconsciência...
Publicado por Eduardo Maia Costa
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E agora acrescento eu: porque não começamos a experimentar tribunais colectivos, sejam da primeira instância sejam do Supremo, compostos por seres como o Filipe La Féria, o psicólogo Eduardo Sá (a presidir) e o prof. Bambo? Ou o Júlio Machado Vaz, o Eusébio e a Sofia Pinto Coelho? Não faltam opinantes mediúnicos e uma vez que nos tribunais não há senão idiotas que não atinam com o que andam a fazer e que criaturas daquelas é que sabem tudo sobre Direito e (especialmente) Justiça, à qual podem aliás aplicar a sua inesgotável sabedoria sobre os assuntos da psico-pedagogia e outros mistérios do oculto, passávamos a ter melhores tribunais, melhores decisões e evitávamos o triste espectáculo de os nossos tribunais, inclusivamente os superiores, serem constantemente enxovalhados a propósito das suas obviamente más decisões, próprias de ogres malignos e ignorantes.

Fora de brincadeiras: alguém se pergunta como é possível que a seita que tem vindo a vozear pelo éter nos últimos dias se atreva a fazê-lo com tão gritante desconhecimento? Que ouse defender barbaridades infames com a arrogância extrema dos profundamente estúpidos e mais ignorantes ainda, e a imprensa lhes dê voz e empreste credibilidade como se fossem oráculos? Concretizando: mas alguém pode defender, sem corar, e por mais argumentos tirados da "piscologia" que lhe apeteça esgrimir, que a pena prevista para certo tipo de abusos sobre menores e cuja moldura vai de três a dez anos de cadeia, deva na necessária concretização ser idêntica para quem os cometa de modo mais ou menos consensual sobre um rapaz de treze anos e para quem os cometa sobre outro de sete? Ou que no primeiro caso deva fixar-se na zona superior da moldura? Ou que seja irrelevante (na medida concreta da pena, repare-se) apreciar o grau de envolvimento da vontade natural própria da vítima?

Quem é esta gente que agora grita e grita sempre que pode? O que a move, além de uma insaciável sede de protagonismo e de influência social, fins a que não hesita em subordinar inteligência, conhecimento, honestidade intelectual e mínimos de decência? Porque confunde com fatal pontualidade o legítimo direito de crítica com o poder de propalar disparates desinformados e desinformantes? Porque julgará que exercer o tal direito de crítica dispensa a mínima capacidade de dominar o tema, e já agora a seriedade? Porque lhes são aceites, sem exigência de esclarecimento, os chavões costumeiros e as habituais proclamações tão tonitruantes como vácuas?
Quem os tratará, se cura tiverem, a esses charlatões, os "psicótudólogos" de extremismo histérico? Temo que, à míngua de intransigente e vigilante denúncia, estejam gradualmente assegurando o seu lugar nos manicómios dos gulags que o futuro nos reserva - e não é lugar de pacientes...

29 maio, 2007

O segredo


Logo após o desaparecimento de Maddie a PJ recusou-se a divulgar o retrato robô do suspeito a pretexto de que o processo estava sob segredo de justiça. Era assim em Portugal; tudo muito secreto. Confesso que nunca me convenci do bom fundamento deste argumento, que me fez lembrar a história, contada pelo Prof. Orlando de Carvalho, da enfermeira que, incumbida de ministrar um indutor de sono a um paciente e constatando que o mesmo dormia, acordava-o para, com zelo mecânico, cumprir à risca a tarefa que lhe fora distribuída. Desconhecia, a diligente enfermeira, o chamado elemento teleológico que deve presidir à mais elementar das hermenêuticas. O mesmo parece ter sucedido com a nossa gloriosa PJ: não importa que o segredo justiça sirva, em primeira linha, para tutelar os interesses da investigação em curso (naquelas circunstâncias, favorecendo, manifestamente, a publicitação do retrato robô) – segredo é segredo, “ordes são ordes” e são para cumprir. Mas, passadas duas semanas sobre o episódio, já decorridos cerca de 20 dias sobre o trágico rapto da criança, eis que a mesma polícia vem publicitar o retrato robô que antes era proibido publicitar, o mesmo que se impunha manter sob reserva em nome do tal segredo de justiça. Misteriosamente, a interpretação estrita da lei cedeu o passo ao desprezo pela lei. Mas havia, claro está, que dar uma explicação, pois, apesar de tudo, passara pouco tempo sobre a aludida recusa e nem toda a malta anda a dormir na forma. E, agora, a razão de ser para a publicitação é a de que ela é útil em razão da “estratégia” da investigação em curso (seja ela qual for). Portanto, temos o seguinte: 1) ou a PJ não publicitou logo o retrato robô em função de uma qualquer estratégia da investigação – não se vê que estratégia pudesse justificar tal opção e, de qualquer modo, ainda que a houvesse, não se vislumbra a necessidade da mentira: bastava dizer que tal estratégia desaconselhava a publicitação; 2) ou a PJ, embora entendendo (erradamente) que o segredo abrange, nas circunstâncias aludidas, o retrato robô do suspeito, optou por ignorar a (sua interpretação da) lei e publicitou-o na mesma; 3) ou, ainda, tem fundamento a tese veiculada ultimamente que imputa a inopinada alteração da atitude da PJ à interferência (leia-se: pressão) do futuro primeiro-ministro inglês. Não sei se as coisas se passaram assim. O que sei é que tal tese é compatível com a súbita (e insuficientemente motivada) alteração de atitude da polícia, com o lamentável modo subserviente como ao longo do circo mediático se prestou a satisfazer, acima de tudo e todos, os media britânicos e, enfim, tal hipótese não é de molde a causar estranheza na sequência do episódio da alteração da conferência de imprensa da PJ devido ao anúncio da candidatura de António Costa ao município de Lisboa. Ninguém de bom senso acredita em bruxas. Mas que as há….

A cáfila...

Por estes dias têm chegado aos Srs. Juízes deste buraco a que ainda chamamos Portugal, exemplares de uma extraordinária publicação do Ministério da Justiça. Mão amiga fez-me chegar uma cópia. A coisa, datada de Março de 2007, em 84 páginas de bom papel, com capa mole em duas cores, terá tido, segundo a ficha técnica respectiva, tiragem de nada menos do que 1500 exemplares. A elaboração da capa, informa a mesma ficha, terá sido encomendada a uma sociedade com a denominação "Alfarroba Amarela - Ideias e Eventos, lda."; a impressão, essa, coube a outra empresa, girando sob a denominação "Tipografia Peres, SA". Quanto foi pago a estas duas sociedades, admitindo que alguma coisa foi, como deve supor-se, é mistério a que não descortino solução. Alguém no Ministério o saberá.

Em jeito de título, traz a brochura, didática, a frase "Justiça de A a Z - Dois Anos de Governo". Em substância, e depois de me submeter à sua leitura, não vi mais do que propaganda política, e de muito má qualidade, passe a redundância. Não sei se este gasto entra nas contas de campanha do PS, mas lá que devia, devia. Sobre isso, no entanto, limito-me a convidar os leitores deste blogue a terem a maçada de lerem também a tal brochura, ajuizando depois por si mesmos. O que aqui trago, com a devida vénia, é a atitude de um Sr. juiz, de que "posto" cópia, formulando votos de que muitos o imitem.

«Exma. Sr.ª
Secretária-Geral do Ministério da Justiça
Maria do Anjos Maltez
Ministério da Justiça – Secretaria-Geral
Rua do Ouro, n.º 6
1149-019 LISBOA

V. ref.: ofício datado de 10/05/2007
Assunto: Publicação ("Justiça de A a Z – Dois Anos de Governo")

Exma. Sr.ª:
Recebi hoje, 29/05/2007, no tribunal em que exerço funções, a publicação referida em epígrafe, gentilmente remetida por Vexa.
A mais da qualidade da impressão, evidenciada em nada menos do que 84 páginas, não pude deixar de notar a tiragem, indicada na ficha técnica e que monta, segundo ela (a ficha), a 1500 exemplares. Não tenho possibilidade alguma de estimar o custo da execução da obra (a mesma ficha técnica dá conta de ter sido efectuada em outsourcing, como agora se diz, cabendo a capa à firma "Alfarroba Amarela – Ideias e Eventos, Ld.ª" e a impressão à firma "Tipografia Peres, SA"). Atrevo-me todavia a supor que não tenha sido gratuita, i.e., oferecida pelas ditas firmas, o que, neste período que atravessamos, de compreensível contenção orçamental, me suscita alguma perplexidade. Estou na verdade convicto de que têm sido constrangidos e mesmo cerceados outros gastos, que alguns, talvez com temeridade, ousarão taxar de mais relevantes.
Depois de lida e relida, não lobriguei na dita publicação relevo significativo para o exercício das minhas funções (falta minha, porventura). Todavia, fortalecido na convicção de que a justiça lusitana está em bom rumo, fiquei com uma dúvida, levantada pelo último parágrafo do prólogo: se o pretendido foi, sobretudo, servir melhor os cidadãos, qual ou quais foram os objectivos que não foram os sobretudo queridos, e cuja existência vem denunciada pelo emprego da referida palavra?
Enfim, sem na publicação ver mais utilidade para a minha modesta pessoa, e com esta inquietação de que aqui dou conta, ouso devolver a Vexa., em perfeito estado de conservação, integralmente a expensas da minha própria fazenda (dano nenhum causando à do Estado) e usando equipamento pessoal até para redacção deste escrito, o exemplar que me coube – o que faço na expectativa de que o mesmo possa ser útil a qualquer outra pessoa, superiormente determinada por Vexa., com o que contribuirei, nesse feliz caso, e de bom grado aliás, para a contenção da despesa e a racionalização dos gastos públicos.
Tomo ainda a liberdade, compreenderá Vexa., de fazer chegar à comunicação social este meu singelo e despretensioso acto, com o que fico esperançado, ao menos, na sua mimetização. E isto, note-se, sem que por um momento tenha sido distraído dos demasiados afazeres que me cumprem e que, passe a imodéstia, venho satisfazendo sem reparo, contra estipêndio assaz magro, já nem falando de me serem taxadas de "privilégios" algumas distinções formais a que por força do cargo tenho ainda direito. Mas enfim, não quero com escusadas lamúrias maçar Vexa., nem muito menos distraí-la dos seus múltiplos afazeres. O assunto é a publicação, e aqui lha devolvo, nos termos e pelas razões que sumariamente alinhavei.
Com os melhores cumprimentos,
Xpto, 29 de Maio de 2007
___________________________
(fulano de tal - Juiz de Direito) »

Lá que é bem visto, isso é...

A instrução

Tenho uma filha, a caminho dos dezassete anos, felizmente belíssima aluna - e esperta como o raio, catano, o que está longe de ser a mesma coisa, aliás nem sequer esta última qualidade sendo condição da primeira; normalmente só atrapalha.
Ora, a petiza com frequência me vai confirmando, à força de exemplos de vívida modernidade, aquilo que há longos anos sei já: a instrução nacional vai de muito mal a inimaginavelmente pior e começa a ser impossível, para quem não seja psicopata ou sofra de alucinações demenciais, representar o que são e como parecem os labregos pós-modernos que infestam o ministério da putativa educação. Sobre a ministra, estamos todos elucidados bastantemente, mas convenhamos que a coisa vem de muito antes e que não pode ser só ela a responsável. Abstenho-me, a bem da exaurida paciência dos leitores, de esmiuçar as causas e os agentes, os "porquês" e os "quens" (curiosa palavra, com ajustadíssimo potencial poético, emprestado por feliz homofonia); limito-me, contido, a dois exemplos.
Tomei conhecimento, há uns tempos, de que a cadeira de educação física (EF), a mais de ser obrigatória (com o que concordo em absoluto - entendendo-a apenas dispensável em o aluno fazendo prova da prática assídua de desporto em meio extra-escolar), contribui, com a respectiva nota, para a média com que a rapaziada se candidata e é ou não admitida ao ensino superior, independentemente do curso concretamente pretendido. Vale dizer: um jovem que, coisa cada vez mais rara, tenha vintes a física, matemática e biologia, pode ainda assim não entrar para o curso de, digamos, medicina, caso a EF (porque é que já não se chamará ginástica, ou, vá lá, desporto?) seja fulminado com um onze. Em seu lugar, poderá entrar no cobiçado curso um outro que, portador de dezoitos às demais ditas cadeiras, tenha um dezanove a EF. E aqui ainda é o menos. Em tal exemplo, e independentemente de alguma injustiça, sempre estamos a falar de bons alunos. Em todo o caso, pode sem esforço perceber-se o que acontece pelas escolas deste desgraçado país aos gorduchos e às trapalhonas que sempre em todas as escolas há. De pouco lhes pode valer o muito que eventualmente aprendam (o que dificilmente lhes sucederá na escola...) e saibam de matemática, física, biologia, história, geografia, filosofia ou línguas, pátria e estrangeiras. Como, já agora, a um bom ou mediano aluno pouco ou nada vale que porventura seja igualmente desportista, mesmo de considerável nível (judoca, nadador, tanto monta); se embirrar com as hóritas semanais dos invariáveis futebóis, andebois, basquetebóis, corridas e etc. cuja prática a escola lhe prodigaliza com abundância, de par com testes escritos sobre regras dos ditos jogos (!), está feito, o camelo, com a mania que é esperto... Leva com negativa a EF e já não vai para o curso que escolheu. No caso concreto da minha filha, sucedeu, como pela mesma altura a jovem me deu conta, que um desembaraçado professor de EF, rapaz sabedor das mais ínfimas regras dos desportos todos, tanto quanto era avesso às dificuldades da língua materna, confrontado com os lamentos da criançada relativamente a esta descabelada situação, encontrou ânimo de retorquir com o argumento, prontamente extraído do matutante bestunto, de que mesmo o maior génio matemático só será um estimável e puro cidadão se não for um "anormal motor" - a mais de não fumador, presumo.

Sim, foi esta a expressão do bicho, "anormal motor", e estive, pela primeira vez na minha carreira de pai, para ir à escola armar um escândalo e ameaçar toda a gente com processos. Passou-me. Pensei no Stephen Hawking e caguei no professor de EF. Diz que há tempos a coisa que temos por ministra prometeu alterar esta pouca vergonha, mas parece que isso também lhe passou. Não sei no que terá pensado entretanto, mas deve ter sido em pouca coisa, admitindo que sabe pensar.


O segundo exemplo que escolhi trazer a estas confidências é fresquinho, de ontem, e vem a jeito de ilustrar o processo de infantilização extrema a que a miudagem vem sendo sujeita. Já não bastavam a quase ausência de testes, o nível ridículo de exigência académica, o facto de os poucos testes terem normalmente as respostas nas perguntas (professores há que chegam a fazer segundos testes idênticos aos primeiros, para diminuirem alguma coisita no "insucesso"), a iliteracia e inumerismo escandalosos de muitos professores, a desautorização constante dos outros muitos que militam contra este estado de coisas. Não. Isso não chega. Há que ir mais longe no processo de estupidificação da Pátria. Agora, o que está na moda é a escola tornar-se o veículo de todas as idiotias da militância politicamente correcta do pós-modernismo. Ora tomem lá esta pérola: Num exame do 11.º ano (de geografia ou de física, já esqueci e a lógica não é boa conselheira para determinar a pertinência do tema), constante de uma colectânea de provas do passado recente (a coisa aconteceu mesmo, portanto), dava-se o exemplo de dois imaginários países. Num, a produção de energia distribuia-se na proporção de 25% nuclear, 35% hidroeléctrica e 40% de queima de combustíveis fósseis (ou coisa que o valha). No outro, 90% da energia era de produção hidroelécrtica e o restante por queima de combustíveis fósseis. Perguntava-se (pasmem - o exame era do 11º ano...) em qual dos dois a distribuição dos modos de produção de energia era "mais equilibrada" (coisa gira). A resposta certa, isto é, a como tal pretendida pelos urdidores da prova, era a que apontasse o segundo país como o da distribuição dos modos de produção de energia mas "equilibrada". A coisa não me admirou assim tanto. No livro de texto adoptado para a mesma cadeira (do 11.º ano, repito), cheio de bonecos, diagramas, fluxogramas e tudo o que dispense texto a sério, o conceito de "sustentabilidade" (coisa moderníssima mas árdua e complexa, que carece de aplicado estudo na fase final do ensino secundário) é ilustrado com a palavrita no centro de um triângulo esquematizado com três bolinhas nos respectivos vértices, a saber, "economia", "renovação" e mais qualquer coisa. Logo em legenda os autores se penitenciam de incomodarem as meninges da criançada com coisas sórdidas como a economia e, em legenda, aconselham a que a gestão dos recursos se faça segundo critérios de "sustentabilidade" e não... económicos!
E não se pode exportar esta corja. Ou, como diria o Camilo, «Portugal inçado de ladrões e a África que se nos despovoa!». Mas claro, estou a recordar um gajo que se suicidou; ainda foi a tempo, coitado...




25 maio, 2007

Disparatidades

Perdoe-se-me o neologismo bárbaro com que quis misturar disparates e disparidades (de que não sou autor, bem entendido). Indo directo ao assunto, recordo que no tempo do Sr. Sampaio, presidente que se notabilizou pela golpada política de decretar a dissolução da AR quando nela havia uma maioria absoluta que apoiava o governo, a imprensa e os tudólogos habitualmente fazedores da triste opinião pública que temos, fustigavam diariamente, sem cessar e com vigor extremo, o Sr. Santana Lopes e mais o seu governo. Eram os "disparates" para aqui, as "trapalhadas" para acolá, o "clima de instabilidade" para acoli, a "confusão", eu sei lá, havia tudo menos identificação de concretos factos que pusessem em causa o regular funcionamento das instituições.
O dito Sr. presidente de então, entre verter umas quantas lágrimas por alma de um republicano antifassista qualquer falecido em Cascais aos 97 anos de idade, abifar uns croquetes e proferir uns discursos capazes de matar de tédio a direcção da Associação de Contabilistas da Brandoa, fingiu que hesitou e, quando lhe pareceu azado, ou lhe disseram que o era, pimba, dissolveu a AR.
O momento do ciclo político-eleitoral era o mais baixo para a maioria, a seita a que o indivíduo em causa pertence já tinha corrido com o invendável Ferro Rodrigues, e assim foi: com argumentos de "trapalhadas", "disparates", o "clima", a "confusão" e coisa e tal, capazes de matar de riso qualquer ser com cérebro, entregou-se o Poder à rapaziada. E os tais, os da "opinião pública", acharam bem, com eles não se toleram "disparates", "trapalhadas", "climas", "confusões" e outras coisas tão perniciosas ao bem público.
Ora, o chefe da comandita, antes da formalização do truque mediante eleições, e não fosse o Maligno tecê-las, prometeu pelas almas todas que não havia subida de impostos e que "havia vida para além do deficit", frase tomada de empréstimo ao tal presidente; dias depois de ser dono da governança desatou a subir os impostos como se não houvesse amanhã e há muito se não via.

Daí para cá, e assim muito pela superfície da memória, recordo-me de uma ministra da educação que sem corar afirmou haver não sei que sentença de um tribunal de Ponta Delgada que por não ser de um tribunal de Lisboa se não aplicava a Portugal; que anda a fechar escolas primárias a esmo por esses campos fora, a pretexto da poupança com isso obtida mas fazendo a pequenada correr montes e vales para ir para outras escolas em muitos casos piores; que no seu ministério alberga uma directora regional capaz de fulminar com processos e medidas disciplinares quem urda chufas a respeito do chefe; e em suma que quando abre a boca dá uma triste ideia do que já era a instrução nacional há coisa de uns trinta anos.

Lembro um ministro da economia (coisa bizarra...) que já anunciou o fim da crise, ao vivo e em directo; que foi à China explicar aos investidores de lá as vantagens do baixo custo de mão de obra em Portugal (lá chegaremos...); que muito recentemente, face à notícia de que determinada empresa ia desligar 500 postos de trabalho, tranquilizou os súbitos desempregados e a nação em geral com a notícia, tão boa quanto falsa, mas válida por um dia quase inteiro, de que a mesma empresa ia criar outros 250 perto dali.


Trago à lembradura um ministro das obras públicas que de cada vez que fala no projecto de um aeroporto de muitos mil milhões de óritos lembra o Vale e Azevedo a prometer reestruturação financeira e sucessos desportivos ao SLB, e pelo meio faz analogias com cancros e outras maleitas.
Ocorre-me um ministro da saúde que determinou a imperativa necessidade de taxas moderadoras para os abusadores que matam o ócio com intervenções cirúrgicas e internamentos hospitalares escusadas.
Rememoro um secretário de estado que num dia assegura a manutenção do congelamento das progressões de carreira e actualizações salariais dos funcionários públicos e agentes do Estado até aos idos de 2009 e no dia seguinte diz que esse aperto acaba já este ano.
Assalta-me o espírito um ministro do interior que logo depois de passar à condição de candidato autárquico pugna pela necessidade de debate sobre o tal aeroporto, que na véspera assegurava ser coisa indispensável e bem decidida.

Assombra-me a recordação da quimera da redução das férias judiciais e os seus infalíveis efeitos benfazejos, que sem dúvida se evidenciarão antes do fim dos tempos; e, já agora, a notável persistência desse arreliante mas dispiciendo probleminha do processo executivo. Para não falar da tentativa de meter a vice-presidente do Tribunal Constitucional o boy jurídico de serviço há longos anos, em justa recompensa pelo seu muito esforço. Quando a coisa falhou, apesar de sempre ter sido metido a Juiz Conselhiero, em substituição da esposa, aproveitou-se a saída do outro para candidato autárquico e deu-se ao tal boy o Ministério da Administração Interna, pelo caminho ficando a nação a saber que por essa via a maçonaria trepava mais um bocadinho das escadas do Poder.
Lembro, também, a escolha do ministro da justiça, cuja passagem por Macau, recheada de sucessos memoráveis, oportunamente relatados na imprensa, lhe não beliscou minimamente as notórias aptidões para o cargo.
E como esquecer o truque trapaceiro de uma Sr.ª governadora civil que marcou eleições à pressa para ver se atrapalhava umas candidaturas potencialmente prejudiciais ao seu candidato?
Como não lembrar, neste contexto, o facto de há dias, segundo notícia não desmentida, um funcionário da PJ que agendara uma comunicação à imprensa, a propósito de uma pequena desaparecida no Algarve e que tem chamado por isso a atenção maciça da comunicação social, ter sido "aconselhado" pelos serviços do Ministério da Justiça a postergá-la (á comunicação...), pois que na hora prevista o candidato à Câmara de Lisboa iria fazer o anúncio da sua candidatura e do seu "programa"?
Poderia olvidar, já agora, que num dia o IEFP assegurou que o desemprego descera em proporções homéricas, e logo no seguinte o INE garantiu que pelo contrário ele subira como nunca desde há 22 anos?
Há maneira de não recordar o Pina Moura, ex-ministro, ex-gestor-público, actual gestor de uma empresa que actua no mercado que tutelou enquanto ministro (e agora nessa qualidade fazendo críticas à legislação que em muitos casos aprovou quando tinha a outra)? E isso em cumulação com a gestão de uma outra, de comunicação e por acaso ligada ao partido espanhol homólogo do que por cá faz que governa?
E o "simplex"!? Hahahahaha! E os planos de investimentos grandiosos que viriam de magnâmimos estrangeiros salvar Portugal da crise? Hihihihihih!
Só agora me lembro, valha-me Deus, da inenarrável história do curso aldrabado do Sr. Pinto de Sousa, das suas aventuras académicas, dos termos que não existem, dos professores quadruplamente regentes, das provas de "inglês técnico" e etc. Já não choca, que o governo de Portugal tenha por primeiro ministro um exemplar do bom e velho "doutor da mula ruça", essa figura tão pícara da literatura e do folclore pátrios!
Entretanto, todos os dias sou lembrado da continuada e brutal perda de poder de compra que me aflige, sem fim à vista, como a milhões de cidadãos. "Trapalhadas"? "Disparates"? "Clima"? Náa... O Sr. Santana Lopes era um modelo de seriedade e rigor. Volte, que está perdoado. Comparado com o seu sucessor, é um fraco aprendiz da arte de semear a confusão e atascar o país mais um bocado. Mas a "opinião pública" ainda se não deu conta disso. Onde estão agora as "trapalhadas"? Os "disparates"? O "clima"? A "confusão"? Foi um ar que lhes deu; sumiram-se.
E o actual Presidente lá terá os seus defeitos, mas não é pessoa de golpadas constitucionais...

O Fim

Começou com a charada do diploma. Continua com a suspensão injusta e ilegal (suponho eu) de um funcionário público. Sabe-se lá onde isto vai parar. Almeida Santos distancia-se, subtilmente. Lino excede-se. A sua despreocupação é reveladora. O PM diz não saber nada do assunto. Como se tal coisa fosse possível! A dinâmica das percepções já mudou. E todos já perceberam que mudou, radicalmente. Ontem, enquanto tomava café, um apoiante do PS exprimia o seu desalento. Um feroz apoiante do PS! É sabido que as percepções têm uma vida conturbada na política. Se fossem entes e se tivéssemos que as dissecar analiticamente seriam um composto bizarro: imponderáveis e objectivas, causas e efeitos, causadas e contingentes. Começou o princínpio do fim. O apoio incondicional de outrora transformou-se em mera crença. E as crenças políticas são traiçoeiras.

24 maio, 2007

O reincidente


Antes eram os soldados americanos. Agora são os homens portugueses. Para Daniel Oliveira os "valores ocidentais" só serão estimáveis quando nenhuma mulher for violentada. E até que isso suceda devemos aprender com quem? Com os muçulmanos?

23 maio, 2007

Uma língua pura

O português não foi sempre esta língua chilra e coalhada dos neologismos parvos e politicamente correctos que hoje em dia nela fermentam e a entumescem, fazendo-a espessa e gelatinosa. Em outros tempos, quando ser português era ordinariamente razão de crescimento da honra e da auto-estima de cada um, escrevia-se (e presuntivamente falava-se) muito melhor. Não haviam ainda os psicólogos e pedo-psiquiatras télévisivos, sociólogos vilãos, jornalistas jornaleiros, políticos e politólogos trapaceiros e nem os tudólogos de toda a espécie, que à força de continuada e esforçadamente a conspurcarem reduzem a nossa língua aos trapos andrajosos com que de costume vem tentando cobrir suas vergonhas. Naturalmente, tudo está em como a usamos, mas se é verdade que nem todos participamos desse sórdido festim de abastardamento, não o é menos que a maior parte dos seres escreventes (e falantes) albergados na Pátria já perdeu todo o sentido da estética linguística e da pureza. Talvez sejam a isso dirigidos pelos assuntos que usam versar. Os tais outros tempos, por desgraça antigos, não conheceram a f. das minúsculas, o nobelizado Saramago sem pontos nem vírgulas e nem parágrafos quase, e muito menos o pedo-psiquiatra que sabe tudo sobre afectos, "vivências" e outras coisas do oculto; produziam outras almas, com outros assuntos, para felicidade dos povos que os viveram. Lá dizia o Oliveira Martins (outra boa época, mais recente mas ainda assim antiga): Portugal acabou com a dinastia de Avis, em 1580.
Não resisto, aqui, a rememorar esses tempos, esses assuntos e essa escrita. Os exemplos são muitos, a Deus graças, mas o que tenho em mãos para agora servir é de um tal Jorge de Lemos, nosso maior, natural de Goa, onde vivia ainda em Dezembro de 1593, após uma pouco conhecida vida de que ainda assim podemos saber ter passado pelo cargo de secretário de diversos vice-Reis e andanças várias por Valença de Aragão e Madrid. Em 1585 publicou a "História dos cercos que em tempo de António Moniz Barreto, Governador que foi dos estados da Índia, os Achens e Jaos puseram à fortaleza de Malaca, sendo Tristão Vaz da Veiga capitão dela" (fantásticos, estes títulos que se usavam antes da moderna concisão), obra impressa em Lisboa por Manuel de Lira (com licença do Supremo Conselho da Santa e Geral Inquisição, segundo adverte o frontispício).
Obra muito rara, dela existem, conhecidos, quatro exemplares. Um da Biblioteca Nacional, outro da Bibiloteca do Paço Ducal da Casa de Bragança, em Vila Viçosa (por legado do Sr. D. Manuel II, que foi seu proprietário), e mais dois, que são cópias manuscritas, uma porventura coeva do autor e depositada na Bibilioteca Geral da Universidade de Coimbra, outra em versão setecentista e jacente na Biblioteca Pública de Évora. O primeiro desses exemplares foi reeditado em 1982 (edição fac-similada), em Lisboa, pela Biblioteca Nacional. Traz curta mas doutíssima nota introdutória de um distinto senhor, de sua graça Pedro da Silveira, a quem vitimei com o latrocínio destas poucas notícias que aqui dou. É dela que passo a transcrever uns suculentos pedaços, modernizando a grafia e a pontuação a crédito de maior facilidade na leitura.
Do prólogo ao Leitor:
«Pareceu-me dever advertir nesta página, a quem este livrinho quiser ler, dos erros que na impressão dele se cometeram (que do meu em o compor sem as alfaias que para tão peregrino e eminente ofício se requeriam, entendo que dou bastante satisfação na epístola dedicatória do felicíssimo Princípe Cardeal Arquiduque de Áustria, nosso senhor, para poder escusar outra de novo) porque como alguns dos erros mudem o sentido da sentença, ou cláusula, e outros o decomponham noutras: não sem causa acontecerá confundir-se que pela mesma de os haver achado, afirme que foi maior o do atrevimento que tive em querer meter este compêndio dos cercos de Malaca na conservação dos homens, com pouco exame: por quanto barbarizar em coisas muito cuidadas e contaminar a pureza delas com falecimentos notáveis, não tem mais desculpa que a da confissão duma muita crassa ignorância: donde não há apelar (com esperança de perdão) para a benevolência e magnanimidade de varões doutos e avisados, pelos validíssimos embargos com que os ministros de Momo e Zoilo costumam sempre vir, por não perderem o direito de sua ardente emulação. Pelo que aponto aqui algumas erratas que mais dissonantes parecem: e passo em silêncio outras, que não ofendem tanto as orelhas, por serem imperfeição de letras de menos ou mais tinta e da própria forma delas: porque se quisera expressar todas, ficaria quimerizando e dando em outro vício pior» [segue curtíssima errata]
Da segunda parte, cap. XIV (após o levantamento do cerco pelos Jaos, em debandada):
«Desta torpe e afrontosa fugida se pode inferir que se a cidade não estivera tão doentia e não tivesse por tão certa e averiguada a vinda do Achem, que bastara a guerra que Tristão Vaz mandava fazer aos Jaos com a armada de remo para dos quinze mil que foram cercar Malaca não escapar nenhum: poque passavam de seis para sete mil os que morreram a ferro e fogo e doença: e chegaram com menos ainda ao seu reino, porque como eram poucas as embarcações e menos os mantimentos, e os mais deles se embarcassem enovelados uns sobre os outros, e fossem combalidos já, e infectados do contágio do ar corrupto e brejoso em que estiveram, foram alijando pelo mar corpos mortos e meios vivos, por incuráveis e prejudiciais à saúde dos sãos.»
Três Bravos, entre muitos [da 2.ª parte, cap. XVI]
«O licenciado Martim Ferreira teve uma estância; nela deu mesa enquanto o cerco durou a trinta soldados, à custa de sua fazenda; e pelejou como esforçado soldado, sendo por profissão letrado»
«De Diogo Lopes o Soldado, que posso dizer que este sobrenome, que mereceu pela espada, não diga melhor, e com mais energia e veemência, para os que o ouvirem, e souberem que foi a correspondência tal, antes e depois da poderosa voz do povo lho dar, folgarem de lhe guardar o seu lugar em qualquer que se tratar de cavalaria e esforço. E para se persuadirem que não deixou nunca de servir bem e de se extremar no serviço, se lembrem que no primeiro assalto que se fez nas tranqueiras dos Jaos, fiou Tristão Vaz dele a dianteira.»
«Nuno Rodrigues capitão do Baluarte das Onze Mil Virgens, deu também mesa a outros trinta soldados, à custa de sua fazenda. Com eles serviu com muito cuidado e muito prestes em tudo, como quem sabia já a que sabia vencer inimigos da fé; porque tinha pelejado com os Achens em companhia do mesmo capitão Tristão Vaz (com quem militava neste cerco contra os Jaos) levando um navio com despesa sua, sem fazer nenhuma à fazenda d'El Rei.»
Soneto [de Diogo Bernardes]
«Porventura no Lethes sepultada
Do nosso Veiga a fama nos ficara,
Se Lemos com a pena não contara
O que ele fez com a sua forte espada
Ser deve em toda a parte celebrada
Tão douta história (inda que breve) clara
Em prudência, em estilo, alta, e rara
Não de ficções, mas de verdade ornada
De bárbaros sem conto a força dura
Com poucos mas ousados lusitanos
Venceste, ó capitão forte e prudente
Teus feitos não direi que são humanos
Que mais humano é quem se aventura
Por seu Deus, por seu Rei, por sua gente.»

E assim, que a coisa já vai prolixa, por ora não maço mais os esforçados leitores com sucessos de pelejas antigas. Voltarei ao tema, sem esquecer o do seu lado negro - porque também não falta na literatura lusitana, antiga e moderna, tratamento da lenda negra da Índia portuguesa; sempre em bom português, e por falar nisso vou procurar, nos baús e cantos mais escondidos da minha biblioteca, entre o Diogo do Couto e o Fernão Mendes Pinto, o que romanceou Elaine Sanceau ("Os Portugueses na Índia") sobre as gloriosas palavras de D. João de Castro, Viso-Rei da Índia, aos mercadores de Goa, quando lhe foi precisa a ajuda destes para armar os socorros à praça de Dio, então em segundo e medonho cerco, posto pelo Coge Sofar.

Poder

O que é o poder? Esta interrogação alberga um pressuposto. Presumimos que o poder é uma essência que pode ser definida. O poder é entendido como coisa quantificável, como capacidade objectiva, como atributo. Todas estas caracterizações surgem desta interrogação essencialista. Todavia, talvez fosse frutífero inverter o prisma da análise e, seguindo Foucault, interrogarmo-nos acerca do seguinte: Como é que o poder é constituído? Assim, abandonamos as considerações que têm que ver com a natureza intrínseca do poder e embarcamos numa análise das formas diversas da sua constituição
O senso comum diz-nos que a essência do poder não é dissociável da sua existência: o poder é... as formas como existe (perdoem-me as tensões gramaticais). Esta bifurcação analítica enganadora, que separa o poder (entendido como essência) das suas condições existenciais, uma propensão epistemológica deveras infeliz que caracteriza muito do pensamento político contemporâneo anglo-americano, não foi corrigida pela sensatez do mais elementar senso comum. Até certo ponto, a ausência de uma rectificação é compreensível. As análises da constituição do poder revelam mecanismos e processos de natureza diversa que, considerados no seu conjunto, ameaçam a integridade conceptual de qualquer definição da essência do poder.

21 maio, 2007

Traição e aleivosia


Não creio que a instauração de processo disciplinar a um professor com 20 anos de carreira por vias de um comentário jocoso sobre a licenciatura (ou sobre a falta dela, não se sabe bem) do primeiro-ministro tenha deixado espantada qualquer pessoa minimamente atenta ao modo de estar na política do Sr. Pinto de Sousa e alguns dos seus sequazes. Esta reedição quinhentista dos crimes de lesa-majestade de primeira cabeça é tão só mais um dos subtis sintomas da deriva autoritária que as coisas levam. Em níveis muito distintos, já tivemos outros sinais que só aqueles que não querem ver – os verdadeiramente cegos – poderão levar à conta de boas intenções: desde um sistema de delação de corruptos (leia-se: aqueles que o funcionário respectivo julgar corruptos ou cuja denúncia seja de molde a agradar ao patrão), passando por uma política de prevenção criminal baseada em paradigmas tão reconhecidamente ineficazes como populistas (veja-se o afloramento dos modelos name and shame na publicação do nome dos devedores ao fisco), passando pela erosão da autonomia do Ministério Público e pela centralização do comando de polícias, dos serviços de informação e dos dados pessoais do cidadão (o cartão único), até ao uso do sistema penal como prima ratio da política social, desde, claro está, que se trate da promoção de valores próprios, à margem dos consensos sociais que são – nesta matéria, mais do que em qualquer outra – exigíveis numa sociedade verdadeiramente democrática. É, pois, nestes “valores” – delação, coscuvilhice, controlo e exclusão – que assenta o programa governativo no que respeita ao seu modo de interagir com o cidadão e, sobretudo, com o cidadão dissidente (a propósito, o citado professor fora já deputado do PSD). Talvez nenhum dos referidos sintomas fosse de molde a, por si só, suscitar inquietação. Juntos, porém, já têm um sentido que dificilmente se pode ou deve desconsiderar.

Iraque

“Iraq has fractured into regional power bases....”

“There is not a civil war in Iraq, but many civil wars and insurgencies involving a number of communities and organizations struggling for power....”

“The conflicts have become internalised by Iraquis as the polarization of sectarian and ethnic identities reaches ever deeper into Iraqi society and causes the breakdown in social cohesion....”

“Each of Iraq`s three major neighboring states, Iran, Saudi Arabia and Turkey, has different reasons for seeing the instability there continue, and each uses different methods to influence developments....”

in

www.chathamhouse.org.uk/pdf/research/mep/BPIraq0507.pdf

Campeões! Campeões! Campeões!


Num ano especialmente difícil, em que a hostilidade da imprensa bateu todos os recordes, em que os árbitros fizeram os possíveis e os impossíveis para dar o título ao slb, aí está: o FC PORTO de novo campeão. A lagartada e a lampionada não metem na cabeça aquilo que pelo mundo inteiro é óbvio e indiscutível para o mais néscio dos adeptos de futebol: o FC PORTO não é do mesmo nível daquelas pobrinhas agremiações de Lisboa. Fora de Portugal, o clube português que toda a gente conhece e os adeptos das outras equipes temem é o FC PORTO. slb? scp? Não dizem nada; ninguém sabe o que são.
Em Portugal, mesmo quando ganham, ou pensam que podem ganhar, ou estão perto disso, não são os putativos méritos deles que aí os levam; são os erros próprios do FC PORTO, na melhor hipótese, são a trambiqueirice e o favoritismo soezes, na pior e mais frequente.
Só por contingência de nacionalidade é que o FC Porto disputa o mesmo campeonato do slb e do scp. O nível de qualidade não é sequer remotamente comparável e as únicas hipóteses dos emblemas de Lisboa estão em esperar que o FC PORTO esteja mesmo muito mal e que a arbitragem dê a ajudinha do costume - intimamente sabedores disso, embora nunca o queiram reconhecer, os lampiões guincham as falsidades e mitos habituais da suposta dominância de bastidores do Sr. Pinto da Costa e aferram-se ao vasto caudal dos seus adeptos e à paleontologia das suas grandezas; os lagartos nem isso têm - exaltam agora o Bento da tranquilidade, que é o que lhes cabe.
Pró ano levam todos mais, que abépias como as deste campeonato o FC PORTO não lhes torna a dar tão cedo e em circunstâncias normais nem com a ajuda de dez árbitros por jogo lá vão.

18 maio, 2007

Portas e a imbecilidade

Portas (PP) não é burro. Mas, por vezes presta homenagem à imbecilidade. Acabei de o ouvir. Afirmou que Carmona é um homem decente. Não falou da sua monumental inaptidão. E é assim que alguém que pretende dinamizar um partido de direita solidariza-se com um homem decente, mas incompetente. A decência é a condição mínima, necessária mas não suficiente, para a vida politica. Não deve ser tratada como algo de excepcional, apesar de tudo. Não sejamos medíocres, Dr. Portas!


O Miguel, do Combustões, tem toda a razão. Aproveito esta ocasião para o cumprimentar, elogiar o seu excelente blog, e desejar-lhe felicidades.

ps: não incluo o link por não saber como o fazer. Desculpas.

Só para que não esqueça...

Mão amiga fez-me chegar esta pérola da burocracia judiciária. É instrutiva, tendo em consideração a pessoa que testemunhou e o que em acta ficou exarado quanto à respectiva identificação. Fica pequena a imagem, mas vale a pena ser ampliada.
Antes do juramento legal e de prestar o seu testemunho (do qual se ignora se o tribunal aproveitou ou podia aproveitar qualquer coisa), o nosso primeiro, Sr. Pinto de Sousa, cidadão cumpridor do dever cívico, lá respondeu aos costumes e, primeiro que tudo, declinou, como cumpre, o seu nome e profissão. Engenheiro Civil, pois claro.
Certamente foi advertido de que deveria responder com verdade, sob pena de incorrer em responsabilidade criminal. É um facto que uma pequena falsidade quanto às habilitações e/ou profissão nada releva no contexto em causa. Mas dá-nos a ideia do que o homem já vinha fazendo, alegremente. Notar-se-á que não consta data deste segmento da acta, mas ao tempo o ser em causa seria ainda deputado. Admitindo que o curso da UnI é bom (e é um enorme "se"), nessa altura ainda o não tinha.

Vai uma rapidinha?


O Bloco de Esquerda continua, imparável, na senda da relativização do casamento: seja pela via de infiltração (dos casamentos homossexuais), seja, como agora propõe, pela via da precarização (o chamado divórcio "a pedido”). Propõe, se bem entendo, que o contrato de casamento se reduza a uma espécie de rapidinha (e à canzana). Li algures que Fernando Rosas terá dito que a solução se justificava porque às vezes o casamento não passava de um “erro de casting”. Eu, ignaro e confundido, reflecti que isso também sucede, não raro, nos contratos de arrendamento urbano, nos contratos de trabalho e em muitos outros. E por isso estranhei que a proposta não se destinasse, também, àquelas espécies contratuais. O senhorio, interpretando como um erro de casting (compreensivelmente, aliás) dar de arrendamento a sua casa a um tipo do BE, punha-o na rua sem delongas e maçadas judiciais; o empregador, tendo empregado um calaceiro do BE, apercebendo-se que o homem, ao invés de trabalhar, passava o dia a distribuir panfletos, despedia-o sem mais considerações, nomeadamente, a necessária nota de culpa (se imputável fosse). Isto, de facto, seria brilhante – ou, ao menos, coerente. Mas só depois (cabeça a minha!) me lembrei que se tratava da malta do bloco, rapaziada que, não obstante insignificante, tem um projecto miudamente definido para todos nós e que passa, entre outras coisas, por ser libertário onde as regras mais importam (casamento, aborto, adopção por gays, etc.) e intervencionista onde as regras menos deviam importar (emprego, por exemplo). Em todo o caso é uma malta curiosa.

The Good

Every art and every inquiry, and similarly every action and pursuit, is thought to aim at some good; and for this reason the good has rightly been declared to be that at which all things aim.

Aristotle, Nicomachean Ethics, Livro I

17 maio, 2007

Hegemonia

A democracia divide pela via da liberdade e une pela via do consenso. Verdade absoluta? Truísmo incontornável? Talvez. Hoje, perante os nossos olhares passivos, a democracia transfigura-se. Os partidos, os ditadorzecos de junta de freguesia, os lobbies, e até os mais insípidos subservientes (assessores, escolhidos, preferidos, favoritos), vergam-se perante a nobreza inquestionável dos princípios democráticos enquanto perpetuam uma hegemonia perniciosa que pouco tem de democrática. Invocam-se os princípios, mas legitima-se a corrupção, o compadrio, a manipulação. Raros são aqueles que, apesar de fervorosos crentes no ethos democrático, atrevem-se a questionar as vulnerabilidades do dito sistema às mais diversas perversões. Importa questionar se estas vulnerabilidades surgem do interior íntimo da democracia liberal ou se resultam de forças que lhe são estranhas.

16 maio, 2007

É oficial - acabou!

A sucessão dos acontecimentos na gestão do Município de Lisboa e o inesperado (?) agendamento de eleições para a câmara respectiva, ditaram antecipação dos rituais próprios do ciclo eleitoral que caracteriza a degenerescente terceira república que temos. Anteontem, dia 14 de Maio, as eleições foram marcadas. Ontem, 15 de Maio, a télévisão pública anunciava, no noticiário das 20.00 h, dois factos sumamente agradáveis:
1 - A crise está no fim, tem os poucos dias contados e a terra lhe pese como chumbo. O crescimento aumentou e até já há economistas que, quais sacerdotisas de Delfos, lobrigam, algures, "sinais de convergência" com as demais economias europeias. Uau! Fantástico!
2 - O desemprego diminuiu, a sua alma não encontre paz. O mês passado, garante o IEFP, heraldo da felicidade próxima e quase tangível da nação, houve menos não sei quantos mil desempregados do que no Abril de 2006; e pasmai, ó gentes, o mesmo heraldo assevera que a descida do número dos desempregados alcançou por igual, com seus benfazejos efeitos, "os segmentos dos jovens e dos adultos" - parece que ninguém fica de fora, neste festim de alegrias nacionais.
Siderado com a inopinada benignidade da nova situação, desprovido de palavras com que adequadamente exprima o meu contentamento, fulgurado, enfim, com as rutilantes argúcia e perícia governativas do nosso primeiro, Sr. Eng.º Pinto de Sousa, o qual entre procelas medonhas assim traz a nau do Estado a tão bom porto, razoo, em todo o caso, que a tal questão das eleiçõezitas não é estranha à súbita brisa de prosperidade que nos vai impulsionar pela popa. Vale dizer, à sagaz determinação do nosso homem do leme ter-ser-á somado um qualquer efeito feliz do agendamento das eleições.
Naturalmente, a infausta simplicidade do meu espírito não consente que extraia da secura das meninges um nexo de causalidade daqueles precisos, exactos e indubitáveis que ao Sr. Gato fedorento motivariam um hilariante "ora aqui está um nexo de causalidade daqueles mesmo de causalidade, que a gente olha e diz: é pá, isto é um nexo de causalidade".
Não me quero todavia fazer culpado de cepticismo excessivo e por isso não enveredo, incréu, pela desconsideração da sucessão dos acontecimentos com argumentos cínicos do tipo daquele que diz que correlação e causalidade não são a mesma coisa. Sou muito pão pão, queijo queijo, e há larga cópia de anos que trago em uso, com assinalável sucesso, a velha máxima segundo a qual hoc post facto ergo propter facto.
Eu explico: se isto está uma desgraça vai para mais de dois anos e de repente, marcadas eleições para a câmara de Lisboa, o desemprego diminui e a economia cresce, as duas coisas logo no dia a seguir, então para mim as eleições fizeram bem à economia e ao emprego - e mais nada!
Partindo daqui, atrevo-me a fazer às pessoas da governança uma sugestão que me dita o bom senso de um pai de família conservador e obtuso, talvez, mas de boa vontade, certamente: é marcar eleições cada quinze dias e nunca mais o país e o povo experimentam as arreliantes crises que os fazem "divergir" da Europa. A poder de votos não tardam dez anos para que olhemos com sobranceria os pelintras do Luxemburgo ou ofertemos aos esforçados alemães emprego nas nossas obras de construção civil.
Seja como for, isto é, sigam ou não o meu conselho, para já sursum corda: a crise acabou, e isso é oficial (já não é uma simples gaffe do ministro Pinho).

O turbo-candidato

Ele é presidente da Unidade de Missão (?) para a Reforma Penal, ele é director do Observatório para Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo, ele foi vogal do Conselho Superior do Ministério Público, ele foi Secretário de Estado da Administração Interna, ele foi director do Serviço de Informações e Segurança, ele foi quase juiz do Tribunal Constitucional, ele está quase a ser Ministro da Administração Interna, ele…

15 maio, 2007

Um inferno



É por ocasião de dramas como o da pequena Maddie e respectivos progenitores que a bicheza que há em cada um se revela, sem freio e sem bridão. É altura ideal para cada qual, conforme o ofício e a disposição, chamar a si um fátuo momento de glória, providenciar pelo crescimento da empreitada ou tão só para projectar nos outros os próprios preconceitos, os mais esdrúxulos e mais rilhafolescos. No primeiro caso, classifico um tal criminólogo que, malgrado o notório delirio polimorfo, a nossa televisão pública, tem feito o obséquio de promover. Este espécime curioso surge diariamente a debitar uma nova tese acerca do desaparecimento da menor, tese que vai “adaptando”, não sem ruborizar um pouco, ao devir dos acontecimentos. Anteontem, com base em fonte que evidentemente não pôde revelar, os facínoras eram os pais da criança, dados a swings e outras práticas debochadas e libertárias que terão instigado uma vingança. Ontem, perante a detenção de um indivíduo, já a coisa apontava para uma rede pedófila, e assim por diante. Ciente de que só se pode manter na crista da onda se disparar em todas as direcções, sem rebuço e sem pudor, presta-se proficientemente ao trabalho. A televisão pública, que a avaliar pela expressão contrita de José Rodrigues dos Santos, entrevistador do referido 000, já percebeu há muito com quem lida, não desarma. Ninguém quer saber de teses racionais ou suportadas em indícios, que essas não induzem a turba (= audiências) ao desejável estado de estupor maníaco. E, de resto, todos já perceberam que só preterintencionalmente uma comunicação social livre contribui para a saúde do regime. Já não vale a pena fingir. Enquanto isso, a televisão bife, refinada em tudo o que respeita a sensacionalismo e exploração do que de mais rasteiro há em cada um, vai-nos alertando para pormenores essenciais que só não escapam a um verdadeiro especialista. Ontem, visionando a Sky News, fiquei a saber (como é que não me lembrei disso antes?) que o facto de o suspeito, detido ou whatever, ter uma prótese ocular poderá ser uma espécie de marca de água de inclinações pedófilas … Além disso, a avaliar pela forma contumaz como os jornalistas ingleses insistem que o homem não é apenas britânico (como de facto é, em termos de nacionalidade), mas tuga e bife meio por meio (que o sangue é importantíssimo nestas questões), fiquei ainda a saber que não são apenas os portugueses que têm complexos e que os complexos que têm talvez não sejam dos piores. Em resumo, um inferno. Nada que o velho Jerónimo não tivesse retratado há já 500 anos.

14 maio, 2007

Verga-te Aldous

Rosalie, mulher determinada, ruminava constantemente. Dizia que tinha que ver com a ascendência. Que o avô era um homem campal, que dedicara muito do seu tempo ao bem estar das suas ovelhas neozelandesas. Rosalie coçava-se. Dizia que era por causa da sua avó, mulher peluda de nome Elrika, que vagueara pelas planícies del Valle Alto. Rosalie surpreendeu-me com os seus dotes de análise genealógica. Por cada atributo pessoal, um antecedente ancestral….primitivo. Era nesta comunhão desavergonhada com o mundo animal que a sua vida girava. Sem saber o que dizer a esta esotérica criatura optei pelo mais austero dos silêncios. Minutos antes de descer na minha paragem de camioneta, Rosalie olhou para mim e disse: Não queres aparecer no nosso acampamento amanhã? O meu primeiro impulso foi dizer não. Parei. Pensei: bolas, há meses que não consigo escrever coisa alguma…esta mulher selvagem é um poço de singularidades…imagina os amigos?! Como será esta comunidade? Isto poderá inspirar um verdadeiro tratado de excentricidades. Verga-te Aldous, que chegou a minha hora! Recorri à mais implacável e utilitária das hipocrisias e respondi: Onde fica? A que horas? Pronto. Aí está. Afinal não tinha sido assim tão difícil. Senti-me como um antropólogo audaz que, momentos antes de entrar na última comunidade de canibais da Papua Nova Guiné, sente uns trémulos avassaladores que se estendem até às mais recônditas artérias. Ao chegar ao acampamento o meu guia inútil (asmático e estúpido) informou-me que tinham sido encontradas duas cobras nos meus míseros aposentos. Uma louca hippie, um guia lunático (descendente dos Maias), medo e fominha. Perguntei-lhe se tinha morto as cobras. Ele disse que não, que a cobra era animal sagrado por aquelas bandas e que quem as matasse seria degolado pela sua tribo (a 5 kms de distancia). Assegurei-lhe rapidamente que respeitaria os costumes locais. Até disse que cobra é bichinho bonito que deve ser honrado. Tinha chegado ao zénite da tremulação. Assim, em menos de duas horas. Senti-me vitimizado pelo relativismo cultural. Pior: senti-me traído. Eu que tinha imaginado que nas montanhas da América central encontraria a liberdade do selvagem de Rousseau. Entrei relutantemente na tenda, examinei cada canto cuidadosamente e, tendo confirmado a ausência de qualquer personna non grata rastejante, apressei-me a fechar o zip. Deitei-me e tentei dormir enquanto tremia de frio e de medo. Abri o meu último chocolate e degustei-o como se tratasse do mais nobre vinho francês. Adormeci. Sono tranquilo? Claro que não. Freud, esclarecido conhecedor da psique humana, já me tinha alertado para os poderes inimagináveis do inconsciente. E assim foi. Reuni, num único pesadelo, todas as más memórias do dia que tinha findado: Eu, a correr na selva, perseguido por uma multidão furibunda de índios asmáticos, atacado por cobras voadoras que saltavam das árvores…salvo por hippies que fornicam ovelhas!? O admirável poder de condensação psíquica que Freud tinha explorado nos sofás de Viena estava a atormentar-me. Uma corrida de obstáculos no terceiro mundo. Acordei repentinamente. Suores frios deslizavam sobre a minha fronha cintilante. Maldita existência, pensava eu.

11 maio, 2007

Dogma I

Tratamos o dogma como uma aberração. Como algo repugnante. Esta justa e resoluta condenação do dogma, que emana das mais nobres virtudes democráticas e liberais, é quase sempre acompanhada por uma certa relutância analítica. Tratemos, portanto, de suspender, heuristicamente, esta nossa aversão ao dogma e de começar a tentar compreender este fenomeno insidioso.
Como é sabido, um dos denominadores comuns de todos os dogmas é a redução brutal da realidade a alguns princípios elementares e infalíveis. O totalitarismo soviético encontrou o seu impulso totalitarista na noção da infalibilidade cognitiva que permeia todo o vasto sistema conceptual do materialismo dialéctico. O totalitarismo nazi, por sua vez, emanou (essencialmente) do pressuposto inquestionável da superioridade racial.
O totalitarismo teocrático, mais complexo e radical do que os seus dois congéneres, procura no transcendentalismo divino a justificação dos seus hediondos actos.
O totalitarismo científico dos comunistas contemplava, apesar de tudo, a sua auto-falsificação pela via empírica. Se a nova sociedade comunista não emergisse das cinzas da segunda guerra tudo poderia ser posto em causa, na privacidade da reclusão, nos clubes de dissidentes underground e nas celas siberianas. Tal foi o trauma das expectativas pervertidas de que ainda hoje se sentem as repercussões na Rússia de Putin. Foram poucos os que, dez anos após a “gloriosa” revolução de São Petersburgo, não compreenderam que o novo homem comunista era uma ficção ao serviço de uma insidiosa nomenklatura que doravante recorreria ao Gulag para se agarrar ao poder. A maioria conhecia a “nobre mentira”, mas temia Moscovo. Os próprios lideres comunistas sabiam-no, como nos ensinaram Giuseppe di Palma e Jerry Hough, dois dos mais notáveis e perspicazes estudiosos do império vermelho.
A presunção da superioridade racial nazi foi mortalmente ferida por uma derrota devastadora. Os ubermensch não perdem guerras. Se as perdem, não são ubermensch. O totalitarismo teocrático não é susceptível de falsificação empírica porque a crença transcendental raramente desce ao mundo dos factos. As suas derrotas nunca são derrotas mas apenas momentos num eterno confronto. A crença transcendental tem um efeito peculiar na vivência do tempo. Instrumentaliza-o de forma absoluta: o único tempo, o tempo que conta, é o tempo vindouro da implantação da ulema, da comunidade de crentes, na terra. É desta aversão ao empirismo, ao mundano, que provém a instrumentalização brutal da vida humana. É dela que brotam os ataques suicidas.
É na presunção da infalibilidade que se encontra a génese perversa da constituição do dogma e do dogmático.

(a continuar...)

10 maio, 2007

Aviso à navegação



Cuidado malta! O sexo oral pode causar "cancaro", mas, em princípio, só nos depravados e debochados. Parece que o risco é 9 vezes superior para aqueles que se divertem com mais do que 6 parceiros.

09 maio, 2007

Continua...

A canalha infame, a tropa de choque das hordas tirânicas do esquerdalho, ainda não está satisfeita. Prossegue, pelas cidades francesas, incendiando automóveis, partindo montras e causando desacatos de toda a espécie. Contra o fassismo. Como já disse, entre esses bandos pululam adeptos do democratíssimo PSF - já não escondem, já não se limitam a deixar o trabalho "sujo" às habituais cambadas de "okupas" e "no globals" em geral. Não, agora, alguns deles lançam as próprias mãos à obra, esquecendo o decoro de quem gosta de se apresentar como puríssima vestal da democracia.
As figuras de proa, essas, mantêm a sua atitude de benevolente displicência, deixando transparecer a verdadeira avaliação que fazem da coisa: a rapaziada dos calhaus e cocktails molotov até tem razão, afinal eles são "dos nossos"...
Assim, um senhor que parece ser o líder da seita do PSF, veio à télévisão "apelar" ao fim da violência (não terá encontrado um eufemismo qualquer!?), dizendo, entre outras pérolas, que tais hordas melhor farão em dentro de um mês virarem a sua "ira" contra o Sr. Sarkozy nas urnas, votando no PS para as legislativas, pois claro, que isso sim causará problemas ao malandro da direita, cuja ignóbil agenda é beneficiada com a dita violência. Ele lá sabe a quem pertencem esses bandos e o quê ou quem os move.
Entre nós, continua a causar um misto de repugnância e riso a forma como a imprensa aborda a questão. O emprego da retórica habitual, do "patofalar" que é a marca de água da "intelectualidade" de esquerda, não cede um milímetro. Ontem, no noticiário das 20.00h, na RTP1, os bandos de canalhas eram referidos como "grupos de jovens contestatários que não se conformam com a vitória de Sarkozy". Com o emprego frequente do termo "jovens" (uma coisa sempre boa e santa, como se sabe), o apresentadeiro de serviço lá encontrou tempo de explicar que na opinião de tais criaturas o Sr. Sarkozy podia ter ganho as eleições, mas continuaria a ter a oposição de uma grande parte da França.
Não se conformam!? Não duvido... A única arma contra esta comandita é a inteligência, mas é cada vez mais rara.

08 maio, 2007

Uma cabeça torturada


«”Mais de um terço dos soldados norte-americanos no Iraque inquiridos pelo Exército acreditam que a tortura deve ser permitida se ajudar a reunir informações importantes sobre insurrectos. Quatro em dez aprovam abusos ilegais se estes salvarem a vida de um companheiro. Estes são alguns dos dados de um inquérito realizado pelo Pentágono a 1767 militares – as entrevistas realizaram-se no Iraque, no Outono do ano passado.” (Público) São estes os soldados que lutam pelos valores ocidentais

Devo dizer, antes de mais, que sou daqueles que subscrevo as palavras do autor castelhano (Tomás y Valiente) de uma obra clássica sobre a tortura, em termos de considerar que se há algum direito fundamental absoluto é o direito a não ser torturado. «Nunca. Nadie. Sin excepciones casuísticas ni limites difusos: “en nigún caso”». Da perspectiva dos limites da intervenção do Estado na esfera do cidadão, é assim que as coisas devem ser vistas e ponto final. A redefinição do conceito de tortura subterraneamente ensaiada pelo Departamento de Justiça dos E.U.A. nos famigerados Memorandos Sobre a Tortura (2002-2004) e doutrinariamente patrocinada por alguns (John Yoo) e apoiada por outros (Alan Dershowitz), de forma a cobrir com um manto legitimador infames actos de tortura perpetrados no Iraque, fugindo, inclusivamente, às obrigações emergentes de convenções internacionais de que os E. U. A. são parte, é, assim, dizia, de censurar sem hesitações e de repudiar sem tergiversações. Exemplo destas, é o dado na obra de Dershowitz, Why Terrorism Works: Understanding the Threat, Responding to the Challenge (2002), onde aquele autor candidamente propôs que nos “casos extremos” um juiz pudesse emitir “mandados de tortura” (curiosamente, uma solução inglesa vigente na centúria de 1540 a 1640).
Mas o que já é sinal patognomónico de uma pavloviana atitude anti-americana (= politicamente correcta), é o modo pronto e categórico, moderno e desempoeirado, como se pretende extrair dos resultados de um estudo da natureza do acima aludido um juízo geral sobre os combatentes americanos no Iraque, sobre o exército norte-americano e, porque não dizê-lo, sobre os americanos em geral (porque é este o tom, porque é este o inequívoco objectivo). Como se em cada um germinasse um torquemadazito, como se quando em cada qual não fosse de presumir um Diogo de Deza em essência, ao menos o fosse em potência. Sim, porque de acordo com o citado bloguista, não é de pressupor em cada marine um soldado endurecido pelo treino, embrutecido pelo combate e solidário por condição e circunstância. Não, muito pelo contrário! Deveria antes presumir-se que em cada soldado norte-americano em guerra palpita, lateja, pronto a revelar-se, um ilustrado Voltaire, um iluminado Thomasius ou mesmo um resplandecente Marquês de Beccaria! Porque eram assim os soldados da U.R.S.S., como são ainda os da Coreia do Norte ou de Cuba (coisa que só se pode intuir, umas vez que tirá-la a limpo implicaria que os respectivos Ministérios da Defesa elaborassem um estudo como o citado…). E os americanos, dados a manias de democracia, deviam sê-lo ainda mais.
Ou seja, não sei o que mais me irrita: se a acefalia do argumento, se a indecência da intenção.

Combustões v. Dragoscópio



Atenção aos desenvolvimentos do titânico embate entre o Conselho da Capitania Geral e Sir Francis Drake.

Sic transit gloria mundi...

A deriva totalitária da esquerda, que em rigor não é deriva, mas um rumo inscrito no seu programa genético, torna-se mais evidente nestes dias de rescaldo eleitoral em França. Os do costume, os que de ordinário incendeiam viaturas e lojas pelas cidades quando algo lhes não agrada, normalmente uma qualquer reunião do G8, mas potencialmente qualquer pretexto, o mais anódino, como a abertura de um McDonald's (esse símbolo infame da opressão capitalista), tomaram-se agora de fervores revolucionários por causa do acto eleitoral que levou Sarkozy à presidência (com 53% dos votos).
Aparentemente, o facto de a Sr.ª Ségolène não ter sido eleita fere-lhes a sensibilidade democrática, que usam à flor da pele. Vai daí, não tolerando na presidência esse ogre fassista que indubitavelmente o Sr. Sarkozy é, de quem porventura esperam menos "compreensão" e "diálogo" do que a dita senhora lhes teria podido prodigalizar e temem que coloque em perigo as mais amplas liberdades, coitadinhas, sempre ameaçadas pela direita, largam a atear fogo em mais uns veículos, quebrar umas montras, apedrejar uns transeuntes e enfrentar corajosamente a polícia, costumeira serventuária do nazi-fassismo-capitalista-globalizante-neo-ultra-liberal-racista-e-machista-inimigo-da-coltura-que-é-só-nossa-cá-da-esquerda.
Por cá, tais criaturas dispõem de uns primos, e se lá as coisas forem parecidas com o que entre nós ficou moda, aguarda-se abertura de inquérito à actuação das forças policiais, não vão estas ter empregado zelo e força excessivos a reprimir esses inocentes devaneios idealistas próprios da juventude.
Ora, o que eu gostaria era de ver o que se passava, qual era a reacção dos democratas encartados e de capa e espada, se um bando de canalhas homólogos mas de sinal contrário, por exemplo os da seita do Sr. Le Pen, largassem a fazer coisa parecida na eventualidade de uma vitória da Sr.ª Ségolène. Já adivinho: caía o Carmo e a Trindade (por assim dizer). Pela Europa fora, urros de indignação jorrariam, ininterruptos, da boca de todo e qualquer bicho careta parlamentar, governativo ou meramente oficiante da imprensa bem pensante. Não haviam de faltar marchas de solidariedade, gestos de desagravo vários e comoventes, apelos heróicos à criação de novos crimes, defesa pragmática de procedimentos penais expeditos e mesmo choros por intervenção das forças armadas.
Como não foi o caso, isto é, como de novo se tratou de uma canalha repelente da extrema-esquerda (e também, note-se, de apoiantes da dita Sr.ª Ségolène, militantes do impoluto PSF), a retórica orwelliana costumeira foi como sempre o instrumento de minimização dos factos e do seu relevo e alcance político. Entre nós, a novilíngua de pau com que a comunicação social nos agride e tenta estupidificar quotidianamente, referiu-se aos acontecimentos e seus autores como "protestos" de "grupos de jovens contestatários" e outros tranquilizadores eufemismos quejandos (foi o caso dos noticiários da TVI e da SIC). Lá para o meio da notícia, na TVI, um apresentadeiro deixou que a boca lhe fugisse para a verdade e referiu-se a "grupos de extrema-esquerda" - muitas destas e sai despedido por notória incapacidade de interpretação da realidade que lhe cumpre transmitir ao povo.
Não é com debates em programas télévisivos de sexta ordem que a malta a que a esquerda quando calha chama povo pode perceber as diferenças actuais entre direita e esquerda - bastava que prestasse atenção, coisa de que certamente já é pouco capaz. Ficam os debates, com o espectáculo deprimente do decrépito e ainda mais caquético Sr. Soares (exemplo vivo de que a esquerda não é capaz de - e nem quer - tirar do armário os seus muitos esqueletos, continuando perdida de amores pelos totalitarismos e tiranias que gerou e que a geram), a poluir o espaço de propagação das ondas sonoras da voz do Professor Adriano Moreira.

Banzai! (bis)




S. Miguel é a muitos títulos um paraíso. Sexta-feira, dia 04 de Maio, um honesto cidadão como este vosso criado logrou "desenfiar-se" das agruras do trabalho, em Ponta Delgada, pelas 16.00 h. Antes das 17.00 h estava na margem da Ribeira da Alegria, freguesia das Furnas, cana montada, calções, sapatilhas, mochilita às costas e ala para dentro de água. Ao segundo lançamento já saltitava na corrente a primeira truta, amostra bem ferrada na boca. Pequenita, voltou para a água, o que se repetiu mais duas vezes. Ainda assim, no espaço de uma hora e corridos quinhentos metros de ribeira, duas com bom tamanho propiciaram luta entusiasmente e vieram para casa, onde este esforçado contribuinte conseguiu chegar a horas aceitáveis para a janta, sem complicações conjugais de maior. Ardei pois de inveja, ó aficcionados do continente, condenados à escassez de rios e ribeiras poluídos e desertos. Hei-de passar o Verão nisto, até 31 de Outubro. E quando não forem as trutas, serão os peixinhos do mar. No domingo, 06 de Maio, foi coisa para o dia todo, das 05.00 h às 20.00 h - gorazes, cantaris, carapaus de kilo, eu sei lá, o diabo. Os chernes faltaram à chamada, mas tudo isso será matéria para outra posta.

Adail Baquis (in the house)

"Eu sei que por vezes dramatizo demais determinadas questões, mas a questão política neste momento é-me causa de certa angústia. Desde há bastante tempo que ando com uma crise de identidade política, provocada precisamente, pela incongruência dessa classe em relação à prática das suas (supostas) ideologias. Assistimos hoje (ontem) a um debate interessantíssimo sobre os quadrantes políticos de esquerda vs direita na Europa. E depois?, o que verificamos na prática? Eu pelo menos só consigo ver a escravatura do défice, da tecnocracia, num modelo educacional que tende em tornar os cidadãos seres autómatos, etc., só para citar alguns. O meu medo é que, por ter de tal forma incutido que tudo não passa de jogadas de marketing político, chegue a um ponto tal, em que não consiga distinguir um bom político de um mau politico, de um com verdadeiras preocupações sociais de outro cujas preocupações só estejam na agenda durante o período de campanha. Contudo, sou uma optimista (não ao modo “panglossiano”); quando muito, se a clivagem entre as classes sociais se acentuar, quando aos mais desfavorecidos, que perdem privilégios a cada dia que passa, lhes começarem a doer os “ossos” e já tiverem pouco a perder, isto estoura, e desenvolve-se uma maior consciencialização das necessidades sociais (nisto eu e o meu amigo Marx estamos de acordo). Ainda que, tenha plena consciência de que as “forças capitalistas” encontram sempre forma de sobreviver e estender os seus tentáculos, pois os "merlins" não desaparecerão (mas que pelo menos tenham nomes menos complicados).
Nota: não, não sou comunista nem algo que o valha, antes o fosse, pois, assim, não estaria nesta crise de identidade. Contudo, nunca faltei com o meu voto quando a isso sou chamada. "
Adail Baquis

Congratulo-te por não seres comunista nem halterofilista. Sim, um grande debate. Fiquei a saber que Miguel Portas precisa de um dentista e de uma operação urgente às amigdalas. A jornalista não desapontou. É uma sintese do ET (Extra Terrestre) com o Diogo Freitas do Amaral. Jerónimo caiu nos tentáculos implacáveis dos nossos merlins. Ficou preso aos testículos da Odete. O Dr. Adriano Moreira não desilidiu, como sempre. Uma notável licção de aritmética. Soares vive obcecado com o Bush. Um dia aparece-lhe um neo con a dar-lhe o penico a meio da noite. Dirá "não, é o hemorroidal, meu caro comparsa."

07 maio, 2007

Visitem a vidente, por favor

Hoje é um excelente dia para visitar o causa nossa. A vidente de serviço publicou um artigo sobre o debate presidencial francês que merece ser lido. Perspicácia. Erudição. Sensatez. Racionalismo crítico. São estas as quatro grandes virtudes das suas "visões."

04 maio, 2007

(parentese 1)

"Quando se traduz em francês 'to enforce the law´, por exemplo, por `aplicar a lei´, perde-se esta alusão directa, literal à força que, do interior, vem lembrar-nos que o direito é sempre uma força autorizada, uma força que se justifica ou que é justificada ao aplicar-se, mesmo se esta justificação pode, por outro lado, ser julgada injusta ou injustificável. Não há direito sem força. Kant lembrou-o com o maior dos rigores. A aplicabilidade, a enforceability, não é uma possibilidade exterior ou secundária que viria ou não juntar-se, suplementarmente, ao direito. É a força essencialmente implicada no próprio conceito da justiça como direito, da justiça enquanto ela se torna direito, de lei enquanto direito."

Jacques Derrida, Força da Lei, pp.12 (Campo das Letras)

03 maio, 2007

O Método Socrático

Sócrates não é socrático. Perverteu a dialéctica grega. Revoltou-se contra a sua nobre cultura. Pontapeou Aristóteles e Platão nos genitais, tratou de exilar Protágoras para o rendimento mínimo, e fechou o ginásio. Uma análise estatística dos seus inimitáveis actos discursivos revela uma verdade inquestionável. Não se trata de uma mera repetição de “conteúdos”, de propósitos que são, mui naturalmente, apresentados de formas diferentes. Não, nada disso! Trata-se de uma repetição de modos discursivos (regras, gestos, automatismos), um sacrilégio intolerável para os seus companheiros da polis que sempre valorizaram o percurso sinuoso da reflexão abstracta e a ponderação cuidada de argumentos distintos. O homem escolheu a via da repetição sintética: mensagem e “veículo” da mensagem… são a mesma coisa. Para alguns “especialistas”, este deve ser o principal propósito de qualquer estratégia política consistente: O que se ouve deve coincidir exactamente com o que se vê. O problema está no “exactamente”. Exactidão científica ao serviço da perversão da autenticidade.

Apercebi-me disto quando a questão da “confiança no país” foi proclamada como um desígnio essencial do executivo. Foi triste. Não por ser uma manobra de marketing político (não sejamos ingénuos) mas por não poder ser uma política do governo. Pensar que a resolução dos problemas deste país pode, e deve, começar com uma sessão de psicoterapia…é obra!

O politicamente correcto emergente, ou vigente, também compartilha desta lógica: se alterarmos a linguagem transformaremos a realidade. Se a crença na engenharia linguística for eficaz, a engenharia física, a dos comportamentos, vem logo a seguir. Este sincronismo dá-me cabo dos nervos.

vita activa (presunção em água benta)

Antes de mais, gostaria de cumprimentar os membros fundadores deste fantástico blog e agradecer o amável convite para nele participar. Espero que, juntos, possamos acirrar os circuitos neuronais cómico-trágicos dos leitores e, quiçá, papar uma trutinha da lagoa do fogo.

Prometo regressar brevemente com a primeira contribuição.

ps: roubei o termo vita activa a uma filósofa, Arendt.

Abraços para todos e obrigado!

Até daqui a pouco.

Vitalidades


O Prof. Vital num seu post do Dia do Trabalhador pede “um pouco (só um pouco) mais de seriedade” (interpolação minha). Com coisas sérias não se brinca. A razão para a indignação prende-se com o facto de o DN ter noticiado que, como modo de comemorar os 100 anos da República (como se a coisa merecesse comemoração), a Comissão de Projectos das Comemorações do Centenário da República teria proposto a consagração legal dos casamentos homossexuais (ou gay, como os ditos preferem). O Prof. Vital, ayatollah do politicamente correcto e reserva moral da Nação, diz que não é bem assim, e que o próprio DN inventou aquela ideia a partir de uma frase do Relatório da Comissão de Projectos das Comemorações do Centenário da República, que reza assim no ponto 3.3.: “no campo das relações sociais: proceder à revisão do código civil em matéria de relações familiares”. O Prof. Vital nega que desta frase se possa extrair a conclusão do DN, jornal que, por isso, de acordo com o ilustre académico, é (imagine-se, o DN da Fernanda Câncio) leviano, populista e preconceituoso.
Claro que o Prof. Vital, como presidente da dita comissão, pode bem fazer as interpretações autênticas que entender do texto do citado relatório. E até pode, envergonhado, fazer uma retirada estratégica. O que não pode – ainda que amiúde o queira – é fazer dos outros parvos. Primeiro, todos conhecem o ambiente instalado, desde a chegada ao poder do prof.-dr.-eng. Sócrates, no sentido de fazer a Nação engolir mais este sapo repelente. Depois, o próprio Prof. Vital, o tal que é presidente da tal comissão-destinada-a-fazer-da-comemoração-da-República-uma-festa-do-PS, não desconhecerá que mais adiante no texto do documento se diz que “Em todo o caso, o centenário da República deveria ser inserido no mainstream da acção política governativa até 2010 em tudo o que tenha que ver (…) com a promoção da igualdade no(s) plano(s) (…) do género (…).” A maçonaria, por mera coincidência, apoia a proposta. Posto isto, e a não ser que o Prof. Vital estivesse a pensar na consagração legal da poligamia, da poliandria, da trigamia ou da bigamia[1], cumpre perguntar: quem é que não é sério, quem é Senhor Professor?


[1] No que não pode fazer-se fé. Com efeito, na última edição da sua CRP Anotada (2007), p. 562, o ilustre (co)autor refere que “O primeiro dos requisitos do casamento, na sua noção tradicional, é o de que se trata de um contrato entre duas pessoas de sexo diferente, o que afasta as uniões de mais de duas pessoas, bem como as uniões de duas pessoas do mesmo sexo (sem prejuízo da eventual liberdade legislativa de atribuir a estas efeitos jurídicos idênticos ao casamento.” (itálico acrescentado). Não se explica, na anotação, a razão de a mesma liberdade não poder ser reconhecida a propósito da poligamia e de outras espécies de ajuntamento.