Cícero, denunciando Catilina no Senado

Cícero, denunciando Catilina no Senado

08 maio, 2007

Sic transit gloria mundi...

A deriva totalitária da esquerda, que em rigor não é deriva, mas um rumo inscrito no seu programa genético, torna-se mais evidente nestes dias de rescaldo eleitoral em França. Os do costume, os que de ordinário incendeiam viaturas e lojas pelas cidades quando algo lhes não agrada, normalmente uma qualquer reunião do G8, mas potencialmente qualquer pretexto, o mais anódino, como a abertura de um McDonald's (esse símbolo infame da opressão capitalista), tomaram-se agora de fervores revolucionários por causa do acto eleitoral que levou Sarkozy à presidência (com 53% dos votos).
Aparentemente, o facto de a Sr.ª Ségolène não ter sido eleita fere-lhes a sensibilidade democrática, que usam à flor da pele. Vai daí, não tolerando na presidência esse ogre fassista que indubitavelmente o Sr. Sarkozy é, de quem porventura esperam menos "compreensão" e "diálogo" do que a dita senhora lhes teria podido prodigalizar e temem que coloque em perigo as mais amplas liberdades, coitadinhas, sempre ameaçadas pela direita, largam a atear fogo em mais uns veículos, quebrar umas montras, apedrejar uns transeuntes e enfrentar corajosamente a polícia, costumeira serventuária do nazi-fassismo-capitalista-globalizante-neo-ultra-liberal-racista-e-machista-inimigo-da-coltura-que-é-só-nossa-cá-da-esquerda.
Por cá, tais criaturas dispõem de uns primos, e se lá as coisas forem parecidas com o que entre nós ficou moda, aguarda-se abertura de inquérito à actuação das forças policiais, não vão estas ter empregado zelo e força excessivos a reprimir esses inocentes devaneios idealistas próprios da juventude.
Ora, o que eu gostaria era de ver o que se passava, qual era a reacção dos democratas encartados e de capa e espada, se um bando de canalhas homólogos mas de sinal contrário, por exemplo os da seita do Sr. Le Pen, largassem a fazer coisa parecida na eventualidade de uma vitória da Sr.ª Ségolène. Já adivinho: caía o Carmo e a Trindade (por assim dizer). Pela Europa fora, urros de indignação jorrariam, ininterruptos, da boca de todo e qualquer bicho careta parlamentar, governativo ou meramente oficiante da imprensa bem pensante. Não haviam de faltar marchas de solidariedade, gestos de desagravo vários e comoventes, apelos heróicos à criação de novos crimes, defesa pragmática de procedimentos penais expeditos e mesmo choros por intervenção das forças armadas.
Como não foi o caso, isto é, como de novo se tratou de uma canalha repelente da extrema-esquerda (e também, note-se, de apoiantes da dita Sr.ª Ségolène, militantes do impoluto PSF), a retórica orwelliana costumeira foi como sempre o instrumento de minimização dos factos e do seu relevo e alcance político. Entre nós, a novilíngua de pau com que a comunicação social nos agride e tenta estupidificar quotidianamente, referiu-se aos acontecimentos e seus autores como "protestos" de "grupos de jovens contestatários" e outros tranquilizadores eufemismos quejandos (foi o caso dos noticiários da TVI e da SIC). Lá para o meio da notícia, na TVI, um apresentadeiro deixou que a boca lhe fugisse para a verdade e referiu-se a "grupos de extrema-esquerda" - muitas destas e sai despedido por notória incapacidade de interpretação da realidade que lhe cumpre transmitir ao povo.
Não é com debates em programas télévisivos de sexta ordem que a malta a que a esquerda quando calha chama povo pode perceber as diferenças actuais entre direita e esquerda - bastava que prestasse atenção, coisa de que certamente já é pouco capaz. Ficam os debates, com o espectáculo deprimente do decrépito e ainda mais caquético Sr. Soares (exemplo vivo de que a esquerda não é capaz de - e nem quer - tirar do armário os seus muitos esqueletos, continuando perdida de amores pelos totalitarismos e tiranias que gerou e que a geram), a poluir o espaço de propagação das ondas sonoras da voz do Professor Adriano Moreira.

2 comentários:

vita activa disse...

Em nome da liberdade, da democracia e da justiça...a sedição, o motim e o frenesim criminoso..é que, além de estúpidos ("Não aceitam" a vitória de Sarko...era sempre do mesmo lado!)..são perigosos..bem talvez sejam perigosos porque são estúpidos..sabe-se lá! É um "mistério envolto num enigma" (Churchill) Existe, sem dúvida, duplicidade de critérios de interpretação-avaliação da realidade política que nos circunda e afunda. Entre nós, o forjador de serviço está a caminho de um ignóbil fim...que retire-se ou afunde-se com e na mais intima merdaçeira, acompanhado pela igualmente fedorenta corja de lambecús subservientes...o PSD encontra-se num limbo e o CDS tentará, julgo eu, penetrar o território do vizinho, com Portas recorrendo à habitual estridência...veremos! Não foi um mau ministro da defesa, mas tenho as minhas dúvidas.

Tortor disse...

Não foi a Sr.ª Ségolène que, dois dias antes dos escrutínio, afirmou que se Sarkozy vencesse era a brutalidade (ispsi verbis)? Será que também ela é um nostradamus da sais, como a senhora abaixo mencionada?