Cícero, denunciando Catilina no Senado

Cícero, denunciando Catilina no Senado

29 maio, 2007

O segredo


Logo após o desaparecimento de Maddie a PJ recusou-se a divulgar o retrato robô do suspeito a pretexto de que o processo estava sob segredo de justiça. Era assim em Portugal; tudo muito secreto. Confesso que nunca me convenci do bom fundamento deste argumento, que me fez lembrar a história, contada pelo Prof. Orlando de Carvalho, da enfermeira que, incumbida de ministrar um indutor de sono a um paciente e constatando que o mesmo dormia, acordava-o para, com zelo mecânico, cumprir à risca a tarefa que lhe fora distribuída. Desconhecia, a diligente enfermeira, o chamado elemento teleológico que deve presidir à mais elementar das hermenêuticas. O mesmo parece ter sucedido com a nossa gloriosa PJ: não importa que o segredo justiça sirva, em primeira linha, para tutelar os interesses da investigação em curso (naquelas circunstâncias, favorecendo, manifestamente, a publicitação do retrato robô) – segredo é segredo, “ordes são ordes” e são para cumprir. Mas, passadas duas semanas sobre o episódio, já decorridos cerca de 20 dias sobre o trágico rapto da criança, eis que a mesma polícia vem publicitar o retrato robô que antes era proibido publicitar, o mesmo que se impunha manter sob reserva em nome do tal segredo de justiça. Misteriosamente, a interpretação estrita da lei cedeu o passo ao desprezo pela lei. Mas havia, claro está, que dar uma explicação, pois, apesar de tudo, passara pouco tempo sobre a aludida recusa e nem toda a malta anda a dormir na forma. E, agora, a razão de ser para a publicitação é a de que ela é útil em razão da “estratégia” da investigação em curso (seja ela qual for). Portanto, temos o seguinte: 1) ou a PJ não publicitou logo o retrato robô em função de uma qualquer estratégia da investigação – não se vê que estratégia pudesse justificar tal opção e, de qualquer modo, ainda que a houvesse, não se vislumbra a necessidade da mentira: bastava dizer que tal estratégia desaconselhava a publicitação; 2) ou a PJ, embora entendendo (erradamente) que o segredo abrange, nas circunstâncias aludidas, o retrato robô do suspeito, optou por ignorar a (sua interpretação da) lei e publicitou-o na mesma; 3) ou, ainda, tem fundamento a tese veiculada ultimamente que imputa a inopinada alteração da atitude da PJ à interferência (leia-se: pressão) do futuro primeiro-ministro inglês. Não sei se as coisas se passaram assim. O que sei é que tal tese é compatível com a súbita (e insuficientemente motivada) alteração de atitude da polícia, com o lamentável modo subserviente como ao longo do circo mediático se prestou a satisfazer, acima de tudo e todos, os media britânicos e, enfim, tal hipótese não é de molde a causar estranheza na sequência do episódio da alteração da conferência de imprensa da PJ devido ao anúncio da candidatura de António Costa ao município de Lisboa. Ninguém de bom senso acredita em bruxas. Mas que as há….

1 comentário:

vita activa disse...

Eu já não percebo nada.