Cícero, denunciando Catilina no Senado

Cícero, denunciando Catilina no Senado

25 maio, 2007

Disparatidades

Perdoe-se-me o neologismo bárbaro com que quis misturar disparates e disparidades (de que não sou autor, bem entendido). Indo directo ao assunto, recordo que no tempo do Sr. Sampaio, presidente que se notabilizou pela golpada política de decretar a dissolução da AR quando nela havia uma maioria absoluta que apoiava o governo, a imprensa e os tudólogos habitualmente fazedores da triste opinião pública que temos, fustigavam diariamente, sem cessar e com vigor extremo, o Sr. Santana Lopes e mais o seu governo. Eram os "disparates" para aqui, as "trapalhadas" para acolá, o "clima de instabilidade" para acoli, a "confusão", eu sei lá, havia tudo menos identificação de concretos factos que pusessem em causa o regular funcionamento das instituições.
O dito Sr. presidente de então, entre verter umas quantas lágrimas por alma de um republicano antifassista qualquer falecido em Cascais aos 97 anos de idade, abifar uns croquetes e proferir uns discursos capazes de matar de tédio a direcção da Associação de Contabilistas da Brandoa, fingiu que hesitou e, quando lhe pareceu azado, ou lhe disseram que o era, pimba, dissolveu a AR.
O momento do ciclo político-eleitoral era o mais baixo para a maioria, a seita a que o indivíduo em causa pertence já tinha corrido com o invendável Ferro Rodrigues, e assim foi: com argumentos de "trapalhadas", "disparates", o "clima", a "confusão" e coisa e tal, capazes de matar de riso qualquer ser com cérebro, entregou-se o Poder à rapaziada. E os tais, os da "opinião pública", acharam bem, com eles não se toleram "disparates", "trapalhadas", "climas", "confusões" e outras coisas tão perniciosas ao bem público.
Ora, o chefe da comandita, antes da formalização do truque mediante eleições, e não fosse o Maligno tecê-las, prometeu pelas almas todas que não havia subida de impostos e que "havia vida para além do deficit", frase tomada de empréstimo ao tal presidente; dias depois de ser dono da governança desatou a subir os impostos como se não houvesse amanhã e há muito se não via.

Daí para cá, e assim muito pela superfície da memória, recordo-me de uma ministra da educação que sem corar afirmou haver não sei que sentença de um tribunal de Ponta Delgada que por não ser de um tribunal de Lisboa se não aplicava a Portugal; que anda a fechar escolas primárias a esmo por esses campos fora, a pretexto da poupança com isso obtida mas fazendo a pequenada correr montes e vales para ir para outras escolas em muitos casos piores; que no seu ministério alberga uma directora regional capaz de fulminar com processos e medidas disciplinares quem urda chufas a respeito do chefe; e em suma que quando abre a boca dá uma triste ideia do que já era a instrução nacional há coisa de uns trinta anos.

Lembro um ministro da economia (coisa bizarra...) que já anunciou o fim da crise, ao vivo e em directo; que foi à China explicar aos investidores de lá as vantagens do baixo custo de mão de obra em Portugal (lá chegaremos...); que muito recentemente, face à notícia de que determinada empresa ia desligar 500 postos de trabalho, tranquilizou os súbitos desempregados e a nação em geral com a notícia, tão boa quanto falsa, mas válida por um dia quase inteiro, de que a mesma empresa ia criar outros 250 perto dali.


Trago à lembradura um ministro das obras públicas que de cada vez que fala no projecto de um aeroporto de muitos mil milhões de óritos lembra o Vale e Azevedo a prometer reestruturação financeira e sucessos desportivos ao SLB, e pelo meio faz analogias com cancros e outras maleitas.
Ocorre-me um ministro da saúde que determinou a imperativa necessidade de taxas moderadoras para os abusadores que matam o ócio com intervenções cirúrgicas e internamentos hospitalares escusadas.
Rememoro um secretário de estado que num dia assegura a manutenção do congelamento das progressões de carreira e actualizações salariais dos funcionários públicos e agentes do Estado até aos idos de 2009 e no dia seguinte diz que esse aperto acaba já este ano.
Assalta-me o espírito um ministro do interior que logo depois de passar à condição de candidato autárquico pugna pela necessidade de debate sobre o tal aeroporto, que na véspera assegurava ser coisa indispensável e bem decidida.

Assombra-me a recordação da quimera da redução das férias judiciais e os seus infalíveis efeitos benfazejos, que sem dúvida se evidenciarão antes do fim dos tempos; e, já agora, a notável persistência desse arreliante mas dispiciendo probleminha do processo executivo. Para não falar da tentativa de meter a vice-presidente do Tribunal Constitucional o boy jurídico de serviço há longos anos, em justa recompensa pelo seu muito esforço. Quando a coisa falhou, apesar de sempre ter sido metido a Juiz Conselhiero, em substituição da esposa, aproveitou-se a saída do outro para candidato autárquico e deu-se ao tal boy o Ministério da Administração Interna, pelo caminho ficando a nação a saber que por essa via a maçonaria trepava mais um bocadinho das escadas do Poder.
Lembro, também, a escolha do ministro da justiça, cuja passagem por Macau, recheada de sucessos memoráveis, oportunamente relatados na imprensa, lhe não beliscou minimamente as notórias aptidões para o cargo.
E como esquecer o truque trapaceiro de uma Sr.ª governadora civil que marcou eleições à pressa para ver se atrapalhava umas candidaturas potencialmente prejudiciais ao seu candidato?
Como não lembrar, neste contexto, o facto de há dias, segundo notícia não desmentida, um funcionário da PJ que agendara uma comunicação à imprensa, a propósito de uma pequena desaparecida no Algarve e que tem chamado por isso a atenção maciça da comunicação social, ter sido "aconselhado" pelos serviços do Ministério da Justiça a postergá-la (á comunicação...), pois que na hora prevista o candidato à Câmara de Lisboa iria fazer o anúncio da sua candidatura e do seu "programa"?
Poderia olvidar, já agora, que num dia o IEFP assegurou que o desemprego descera em proporções homéricas, e logo no seguinte o INE garantiu que pelo contrário ele subira como nunca desde há 22 anos?
Há maneira de não recordar o Pina Moura, ex-ministro, ex-gestor-público, actual gestor de uma empresa que actua no mercado que tutelou enquanto ministro (e agora nessa qualidade fazendo críticas à legislação que em muitos casos aprovou quando tinha a outra)? E isso em cumulação com a gestão de uma outra, de comunicação e por acaso ligada ao partido espanhol homólogo do que por cá faz que governa?
E o "simplex"!? Hahahahaha! E os planos de investimentos grandiosos que viriam de magnâmimos estrangeiros salvar Portugal da crise? Hihihihihih!
Só agora me lembro, valha-me Deus, da inenarrável história do curso aldrabado do Sr. Pinto de Sousa, das suas aventuras académicas, dos termos que não existem, dos professores quadruplamente regentes, das provas de "inglês técnico" e etc. Já não choca, que o governo de Portugal tenha por primeiro ministro um exemplar do bom e velho "doutor da mula ruça", essa figura tão pícara da literatura e do folclore pátrios!
Entretanto, todos os dias sou lembrado da continuada e brutal perda de poder de compra que me aflige, sem fim à vista, como a milhões de cidadãos. "Trapalhadas"? "Disparates"? "Clima"? Náa... O Sr. Santana Lopes era um modelo de seriedade e rigor. Volte, que está perdoado. Comparado com o seu sucessor, é um fraco aprendiz da arte de semear a confusão e atascar o país mais um bocado. Mas a "opinião pública" ainda se não deu conta disso. Onde estão agora as "trapalhadas"? Os "disparates"? O "clima"? A "confusão"? Foi um ar que lhes deu; sumiram-se.
E o actual Presidente lá terá os seus defeitos, mas não é pessoa de golpadas constitucionais...

14 comentários:

Anónimo disse...

Será que estamos todos em estado semi comatoso? Caramba, a memória pode ser fraca mas não tanto! Não que nutrisse qualquer simpatia pelo santanete, mas golpes palacianos é que não deviam ser tolerados em nenhum país civilizado. Se calhar o problema é esse mesmos: ainda não chegamos a esse patamar.
A única dúvida que tenho é a de a de saber até quando vamos deixar o polvo apertar-nos com os seus pegajosos tentáculos, sem reagir.

Tortor disse...

E o nepotísmo, hem? Já viste a última postada na Grande Loja? Do tal Alberto Costa, que fez as tais coisas que fez em Macau? Hem?

Mónica disse...

Ó Kzar, essa de pedires que volte o Santana (que ontem disse que o Marques Mendes tomava medidas "estalinianas") também não será excessiva? E não podíamos exportar os dois, o Sócrates e o Santana, assim, por exemplo, para os Açores que, de acordo com a Ministra da Educação, não fazem parte de Portugal? um bom local seria o ilhéu da Vila Franca ou o ilhéu das Cabras. Parece que são reserva natural...

FMS disse...

Post do ano.

Anónimo disse...

Estamos entregues à bicharada. Os jotas chegaram ao poder.
P.S. Kzar, tá tudo muito certo, mas há que não esquecer as responsabilidades que tens para com o Porco. O Porco aguarda um post teu. Ou isto agora troca-se de blog como quem troca de gaja e tá a andar? Não que eu seja ciumento, mas fónix, agora é só ca outra, só ca outra...

Mefistófeles (www.tapornumporc.blogspot.com)

vita activa disse...

Chamem a Guarda Cossack...o Kzar declarou GUERRA!!

:)

M.R, disse...

Parabéns ao autor do blogue! Excelente análise dos dislates e disparates - sem esquecer as obscuras teias que vão tecendo... -desta gentalha que se apoderou do aparelho de Estado (do estado a que isto chegou....).

Gentalha sem formação intelectual, sem cultura sólida, sem princípios, sem valores morais, sem bases espirituais (sabem lá o que é isso...?!!!), que pode dar este bando ao País ...?!

São do mais medíocre que já se viu! Promovem a vulgaridade e a incompetência alarve e boçal, e, ignorantes e inaptos, só cuidam das suas ocas vaidades e interesses pessoais.

É visível a cada dia que passa o afundamento da Nação destruída por tal horda de mentecaptos!
É tempo de dizer basta a esta cáfila que nos vai levar ao abismo, se não os pararmos a tempo!

Anónimo disse...

Kzar, andaste a coleccionar essas coisas. É verdade que eles são isso tudo e que tudo isso são «trapalhadas». Mas não se pode branquerar o Santana Flopes e suas Santanetes, que armaram um circo maior em muito menos tempo.
.
Artolas Olho-vivo

Mónica disse...

Um circo maior? Onde? Quando? Ó Artolas, de olhoo não muito vivo.

Cartolas disse...

Rámente, ná tou a ver quo circo do Santana fosse maior quo deste merdas dagora, mas prontos, e assim, sei lá, o olhovivo é que sabe...

f disse...

cambada de invejosos e reaccionários. o governo sócrates é o melhor que portugal já teve. não se conformam com a disciplina imposta às corporações dos interesses instalados.

Mónica disse...

Olha se não é o Abrantes disfarçado de Câncio no último comentário. Sempre subreptício, sempre venticular, sempre maçon.

Kzar disse...

Ná, ó Mónica, isto sou só eu com ataques esquizóides de fragmentação da personalidade e experimentalismo de "vivências" alternativas.
Pretendi conhecer a sensação de escrever disparates e sabujar o governo e como hoje de manhã me esqueci da medicamentação, usurpei o "nick" da câncio e tentei, como ela,não pensar. Pelos vistos ainda não lhe apanhei o jeito, que tu desconfiaste logo foi do Abrantes. Mas é animador: estou lá perto. Qualquer dia engano-te mesmo!

Mónica disse...

Ufa, ainda bem. Julgava que essa praga do Abrantes e pandilha já os tinha encontrado. é que este blogue ainda não está muito poluído...