Cícero, denunciando Catilina no Senado

Cícero, denunciando Catilina no Senado

15 maio, 2007

Um inferno



É por ocasião de dramas como o da pequena Maddie e respectivos progenitores que a bicheza que há em cada um se revela, sem freio e sem bridão. É altura ideal para cada qual, conforme o ofício e a disposição, chamar a si um fátuo momento de glória, providenciar pelo crescimento da empreitada ou tão só para projectar nos outros os próprios preconceitos, os mais esdrúxulos e mais rilhafolescos. No primeiro caso, classifico um tal criminólogo que, malgrado o notório delirio polimorfo, a nossa televisão pública, tem feito o obséquio de promover. Este espécime curioso surge diariamente a debitar uma nova tese acerca do desaparecimento da menor, tese que vai “adaptando”, não sem ruborizar um pouco, ao devir dos acontecimentos. Anteontem, com base em fonte que evidentemente não pôde revelar, os facínoras eram os pais da criança, dados a swings e outras práticas debochadas e libertárias que terão instigado uma vingança. Ontem, perante a detenção de um indivíduo, já a coisa apontava para uma rede pedófila, e assim por diante. Ciente de que só se pode manter na crista da onda se disparar em todas as direcções, sem rebuço e sem pudor, presta-se proficientemente ao trabalho. A televisão pública, que a avaliar pela expressão contrita de José Rodrigues dos Santos, entrevistador do referido 000, já percebeu há muito com quem lida, não desarma. Ninguém quer saber de teses racionais ou suportadas em indícios, que essas não induzem a turba (= audiências) ao desejável estado de estupor maníaco. E, de resto, todos já perceberam que só preterintencionalmente uma comunicação social livre contribui para a saúde do regime. Já não vale a pena fingir. Enquanto isso, a televisão bife, refinada em tudo o que respeita a sensacionalismo e exploração do que de mais rasteiro há em cada um, vai-nos alertando para pormenores essenciais que só não escapam a um verdadeiro especialista. Ontem, visionando a Sky News, fiquei a saber (como é que não me lembrei disso antes?) que o facto de o suspeito, detido ou whatever, ter uma prótese ocular poderá ser uma espécie de marca de água de inclinações pedófilas … Além disso, a avaliar pela forma contumaz como os jornalistas ingleses insistem que o homem não é apenas britânico (como de facto é, em termos de nacionalidade), mas tuga e bife meio por meio (que o sangue é importantíssimo nestas questões), fiquei ainda a saber que não são apenas os portugueses que têm complexos e que os complexos que têm talvez não sejam dos piores. Em resumo, um inferno. Nada que o velho Jerónimo não tivesse retratado há já 500 anos.

10 comentários:

vita activa disse...

Caro Camarada


Isto é assustador.

Quanto aos diatribes dos bifes, é coisa costumeira. Gosto da GB, mas a imprensa agitprop que por lá pulula é um inferno de preconceitos, de complexos de superioridade, que fariam corar a propria Rainha. E eles lá conhecem o mercado que servem. Há un quelque chose je ne sais quoi de nariz arrebitadinho que me mexe com os nervos...
É uma vergonha....! Os complexos dos Portugueses NÃO são dos piores porque NÃO são complexos de superioridade

vita activa disse...

Eu assisti a uma cena curiosa no metro de londres quando visitei aquela cidade adorável pela última vez.

Um Françês. Um Brit. Um Americano. Todos estudantes. Juntos, amigos, bem bebidos. Ao meu lado, no metro. O Brit começa a gozar com o Françês, a dizer-lhe que se não fossem os Brits a célebre Ressistance não teria durado mais do que uma semana. O Françês riposta e diz que se não tivesse sido a Ressistance, Hitler teria conseguido invadir a GB. O Americano, calado com ar de surpreendido.

Tortor disse...

Ora aí está. E se lá estivesse um português, o que diria?

vita activa disse...

Olha, se fosse comigo, ia tomar mais umas cervejolas...com o Americano!

eh eh ehe he h


abraço

Anónimo disse...

Os bifes têm de facto inúmeros defeitos, mas nem tantos quanto a generalidade dos povos em redor. Então que respeita a manias de superioridade (e totalmente injustificadas, ainda por cima) têm muito que aprender com os froggies.

Mas isso são coisas de somenos. O importante é que nuinca mais deixo os meus filhos em local acessível por luso-britânicos de olhos de vidro. E se vir algum desses que tenha perna de pau chamo logo a armada. Tá tudo a ficar cada vez mais biruta.

Kzar

VIta Activa disse...

comparativamente falando, são os maís simpáticos, de longe....Na Francia o chauvinismo é uma propensão quase genética!

O que eu quero é que encontrem a menina e que prendam o-os *&%$#*=& que fizeram isto...

o resto são tretas, de facto

Tortor disse...

Como terão reparado, no fim do postal, escrevi por engano meio século quando quis escrever meio milénio. Já emendei.

Anónimo disse...

Melhor post só este comburente


http://combustoes.blogspot.com/2007/05/molestar-e-maltratar-crianas.html

No tempo dos meus ancestrais davamos adequado tratamento a essa cáfila de bestas pedófilas.Hoje, por via da evolução civilizacional, estamos condenados a fustigar os animais com palavras inócuas !
Torquemada Suave.

FMS disse...

Eia ca granda blog. Zurzo-me por só agora tê-lo descoberto. Tamerlão furioso terá feito menos mossa no planisfério do que isto :)

Tortor disse...

Obrigado fms. Faz-se o que se pode.