Cícero, denunciando Catilina no Senado

Cícero, denunciando Catilina no Senado

01 junho, 2007

França


O que se passou em França durante o processo eleitoral foi deveras extraordinário. O candidato da extrema-direita, Le Pen, conseguiu influenciar de forma decisiva a agenda política de toda a direita Francesa. Fê-la gravitar em torno da “sacrossanta” questão da identidade nacional. Sarkhozy, o candidato da direita tradicional, seguiu-o submissamente. É provável que tenha sido movido tanto pelo medo da deserção de alguns dos seus apoiantes para Le Pen como pela possibilidade de atrair potenciais desertores da extrema direita. Nem a insuspeita socialista Ségolene conseguiu escapar à força gravitacional da questão identitária. O nacionalismo politicamente correcto de Ségolene não é o nacionalismo xenófobo de Le Pen, é certo. Não obstante, esta rentrée da identidade na politica eleitoral foi o facto mais significante das eleições Francesas, independentemente dos resultados eleitorais.

A questão da identidade nacional é uma verdadeira caixa de Pandora. O que é a “identidade nacional”? Práticas sociais e tradições? Valores que são constituídos e praticados livremente no espaço público democrático? Somos aquilo que escolhemos ser ou aquilo que a história “diz” que somos? As duas coisas? Sim! O conceito de identidade nacional encerra uma tensão entre os significados que herdamos e aqueles que criamos. Esta tensão omnipresente faz parte do próprio conceito de identidade. Sem memoria não pode haver identidade. Sem liberdade, a identidade não passa de uma imposição e ninguém se identifica com aquilo que lhe é imposto. Não faz sentido reduzir a identidade a uma ou outra das suas dimensões.

O nacionalismo de Le Pen é um nacionalismo que evoca o herdado, o retorno às origens “impolutas” e, claro, a autenticidade da pertença histórica. É, portanto, um nacionalismo de pendor regressivo que tenta projectar para o presente o que se perdeu no dilúvio imparável da modernidade: a sociedade orgânica e hierarquizada (cada macaco no seu galho), a ordem moral dos princípios absolutos, a memoria da grandeza imperial, a familiaridade cultural etc. Em suma, é a tentativa de restituir uma “essência” perdida. Esta obsessão nostálgica com a pureza, com um principio imaculado ao qual se permanece fiel, faz com que o nacionalismo das origens seja quase sempre dogmático e, por conseguinte, autoritário.

O nacionalismo liberal democrata não emana do reconhecimento de atributos culturais, características étnicas ou religiosas, mas dos valores cívicos, legais e políticos da democracia liberal, como a liberdade por exemplo. Trata-se de uma identidade cívica que não é meramente herdada, apesar de há muito se ter constituído como tradição vibrante em toda a Europa ocidental. É deste nacionalismo que a França precisa. O nacionalismo das origens de Le Pen terá o efeito perverso de exacerbar, ainda mais, os conflitos entre as maiorias e as minorias. O grande problema é que o nacionalismo das origens é muito mais fácil de definir e de promover nas eleições. É sintético e “objectivo.” Não é complexo, nem ambíguo. Estabelece critérios claros de pertença e de identidade e é, por esta razão, sedutor. Liberta os seus crentes da confusão e do medo.

3 comentários:

Tortor disse...

Belíssimo post VA. Muito bem.

Vita Activa disse...

obrigada

S. disse...

Um tema fulcral, que a mim me é muito caro também, bem analisado aqui. Parabéns!