Cícero, denunciando Catilina no Senado

Cícero, denunciando Catilina no Senado

05 junho, 2007

Repita lá isso fáshavor...

Não corro certamente o risco de ser confundido com um qualquer encartado defensor da virginal pureza do Ministério Público (MP) e seus magistrados quando em bloco considerados. Estou por isso muito à vontade para manifestar algumas perplexidades suscitadas pelas declarações recentes de certa figura pública muito mediática, um reputado fiscalista e mais uma reserva moral da Nação - cada vez mais nacinha, como incansavelmente vinca o Sr. Dragão.

Primeiro, o excerto mais sumarento das ditas declarações, do intrépido Dr. Saldanha Sanches (adiante SS), habitual pregador das mais santas virtudes, públicas e privadas de cada um, prestadas como de ordinário à comunicação social, desta feita em forma de entrevista à revista "Visão" (edição de 31/05/2007), e geradoras de mais uma guerra de Alecrim e Manjerona daquelas que recorrentemente mortificam a Pátria:

«Visão: Porque é que a máquina judicial não responde?

SS: Por exemplo, nas autarquias da província há casos frequentíssimos de captura do Ministério Público pela estrutura autárquica. Há ali uma relação de amizade e de cumplicidade, no aspecto bom e mau do termo, que põe em causa a independência judicial

Em segundo, as perplexidades: O Dr. SS disse mesmo isto ou é mais uma trambiqueirice do jornalismo de pacotilha que o país ganhou em sorte?
Parece que agora diz que não foi bem isso que pretendeu dizer e que as suas palavras têm de ser "correctamente" interpretadas. Ainda assim, não duvido de que um homem tão honrado e probo quanto ele, pessoa de tão alvos costumes e salvíficos propósitos como os que sempre ostenta, se dignará rapidamente a individualizar ao menos um só dos "frequentíssimos" casos de "captura" do MP pela estrutura autárquica - já agora, com indicação geográfica, nomes de pessoas e, se possível, qualquer incidência concreta da torpeza em questão, para que as coisas não fiquem assim a modos de em águas de bacalhau, vagas, quietas, pútridas e em condições de serem impingidas à populaça como mais um caso de "olha lá estes ladrões todos, que toda a gente sabe da roubalheira e o MP sem fazer nada, que está é feito com eles!". Não. O Dr. SS não é pessoa de aleivosias demagógicas e infundamentadas e para mais consta que é professor universitário, académico daqueles com curso mesmo e logo presuntivamente insusceptível de ser acometido por acessos de histeria demagógica aguda.
Por último, confio em que o DR. SS possa também esclarecer onde fica esse sítio tão abrangente chamado "província", no qual diz florescerem, fervilhantes, malfeitorias e latrocínios de toda a ordem, perpetrados já não apenas pelos habituais dirigentes futebolísticos e autarcas de degenerados costumes, mas também por magistrados do MP indignos do título e da função, "capturados", não sei ainda como, pelos primeiros. Supõe-se, pelo que o DR. SS deixou entrever nas suas corajosas declarações, que essas "capturas" serão facilitadas por relações de "amizade" e "cumplicidade", que se intuem propiciadas pela pequenez dos lugares - e assim deduz-se que a província é um sítio fora de Lisboa, lugar este último onde o MP já será impoluto ou pelo menos não tão corrompido, não havendo as tais relações de amizade e cumplicidade.
Claro, é universalmente sabido que fora de Lisboa a malta é toda prima, sobrinha, cunhada, afilhada ou compadre uma da outra, inclusivamente do gajo do MP que foi lá parar, a essas parvónias que não são a capital, e que é por isso que a muita corrupção que todos "sabemos" haver nas câmaras fica nas tais águas de bacalhau. Sobre isso o Dr. SS nada tem que esclarecer, que já se adivinhou, com segurança inteira, o que ele intensamente pensa. Pedem-se-lhe, porém, três pequeninas explicações: quais são os aspectos "bons" da relação de cumplicidade estreitada na tacanha pequenez da corrupta "província"? E em que é que essas relações e a surpreendente "captura" (fantástica, esta palavra neste contexto...) do MP põem em causa o poder judicial? Pensará o Dr. SS que o MP integra o poder judicial...?

Certas pessoas, de tanto aparecerem e quererem aparecer, começam a andar às rodas sobre si próprias, cada vez mais depressa, até desaparecerem. Até que o Dr. SS desapareça, misericórdia que o tempo trará sem dúvida, o caso é para o MP investigar - já agora, calha bem que o investigue a amantíssima e justiceira esposa do senhor, ironia a que levou a honrosa conduta de um Sr. advogado de Lisboa, Dr. José António Barreiros, pessoa inteira, inequívocamente honrada e que mais uma vez mostra não se conformar com tagarelas e nem com as meias palavras deles. Bem haja.

4 comentários:

Anónimo disse...

O camarada Saldanha Sanches, porventura a mando da mulher, resolveu meter-se com o MP (da província - que estes, julga ele, não chateiam). De caminho, decerto também com inspiração de travesseiro, mete o poder judicial ao barulho, como se o MP o integrasse! Só não se entalará porque se antevê que um MP competente de Lisboa, inspirado pelo que se adivinha haverá de saber arquivar o inquérito criminal suscitado pelo advogado que não em boa hora demonstrou não estar para suportar mais dichotes destes cabeçudos.
De estranhar é ainda a reacção do sindicato do MP, que se foram queixar ao seu Conselho Superior (mas para quê)... e se esqueceram do elementar inqueritozito. Teve de vir um advogado mostrar-lhes como se defende a honra.
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Artolas Olho-vivo

Tortor disse...

Esta de o MP ter sido "capturado" pelas "estruturas autárquicas" é obra (hoje, na TV, o Dr. SS exemplificou a promiscuidade com um procurador que se sentava à mesa de um autarca numa qualquer comemoração de uma agremiação partidária). Ora, não passaram ainda meia dúzia de meses sobre o dia em que a Dr.ª Maria José Morgado, esposa do Dr. SS e primeira magistrada da nacinha, participou num colóquio organizado pelo PS, sobre o aborto, e em que defendia, imagine-se, que a punição do aborto poderia dar em corrupção (a senhora deve ter qualquer trauma de infância com a corrupção). E agora o Dr. SS, desavergonhado, vem apontar o dedo a uns delegados e logo de província! É preciso lata!

Kzar disse...

Tens razão, ó Tortor, não me lembrava dessa da dona do combate à corrupção ter andado de pádinha com a seita do PS na ocasião do referendo, a dizer dislates como o que agora recordas - e já nessa altura andava de casa e pucarinho com o Dr. SS, que sabe tudo sobre as maldades que fazem os procuradores da província, esse lugar com galinhas e Pintos da Costa, mas não faz ideia de por anda a patroa...

S. disse...

Bem visto Tortor.